Relações de alteridade nos grupos primários da sociedade pernambucana.
Agosto 27, 2009Texto que escrevi e que postei no Recife não é Manhattan (o meu antigo blog) em 03 de Janeiro de 2007 :
Um rabino cabalista explica os prejuízos causados pela energia negativa, e eu luto contra o moralismo disfarçado de ética. Procuro me situar no universo em que estou inserida e, finalmente, encontro a resposta para todos os meus problemas:
Recife não é Manhattan.
Manhattan não é Paris.
Eu não faço parte deste mundo.
Numa cidade em que as relações de alteridade são postas no futebol, entre um e outro jogo, as pessoas seguem instintos primitivos. O primeiro deles: a sobrevivência. Todos são levados a agir como caranguejos presos em um caçoa*. Mas, o pior de todos os instintos é aquele da perpetuação da espécie.
O pernambucano tem necessidade de afirmação através da sua prole. Ela é a grande motivação da sua vida e simboliza todas as suas frustrações. A relação entre pais e filhos é completamente sem futuro. Nela não existe encontro nem desencontro, apenas uma reprodução dos comportamentos adquiridos. Padrões perpetuados pela ‘boa convivência’ citadina.
Existe o boi e o touro. Nada além de figurações masculinas de força em que a potência foi posta a prova faz tempo. A mulher (vaca, pata ou galinha) trata-se apenas de uma contingência, ou, se preferir, de um mal necessário.
Este é um mundo para lá de Omã. Camus, em toda sua literatura do absurdo, não seria capaz de recriar tão pavoroso cenário. Aqui, além das casas serem voltadas contra o mar, as mentes ensimesmadas atiram-se na total falta de responsabilidade: no que somos faltosos nos socorre a divina providência.
Existir não é prerrogativa do pernambucano. Este se contenta com o uivar do vento em seu juízo. De bar em bar preenche os seus dias. Busca instruir os machos mais novos a buscar o seu mesmo caminho: o mais fácil. Ninguém precisa pensar.
Enquanto isso, em casa, as figuras femininas dividem-se. Seus padrões são aqueles para o acasalamento: cortesia, vulgaridade e amabilidade. A palavra de ordem: sim, eu aceito. Mãe e filha instrumentalizadas pelo mesmo manual. Jamais serão amigas, afinal a humanidade é constantemente negada pela supressão da existência. Filha e esposa, em verdade, completam a mesma figura no imaginário de culpa masculino. É o incesto que assume a covardia em forma de platonismo.
Neste quadro funesto as relações domésticas desembocam no mundo profissional para derramar toda a sua falta de objetividade e propósito. Os projetos e as metas não fazem sentido algum. O que irá importar será a sobrevivência. Sempre o instinto e a perseguição selvagem àquele que se demonstra mais humano.
Vou-me pegar ao rabino. De todos, o menos santo.
Beauvoir
Julho 29, 2009“(…) Être féminine, c’est se montrer impotente, futile, passive, docile. La jeune fille devra non seulment se parer, s’apprêter, mais réprimer sa spontanéité et lui substutuer la grâce et le charme étudié que lui enseignent ses aînées. Toute affirmation d’elle-même diminue sa féminité et ses chances de séduction. Ce qui rend relativement facile le départ du jeune homme dans l’existence, c’est que sa vocation d’être humain et de mâle ne se contrarient pas: déjà son enfance annonçait ce sort heureux. C’est en s’accomplissant comme indépendance et liberté qu’il acquiert sa valeur sociale et concurremment son prestige viril: l’ambitieux, tel Rastignac, vise l’argent, la gloire et les femmes d’un même mouviment; une des stéreotypies qui le stimulent, c’est celle de l’homme puissant et célèbre que les femmes adulent. Pour la jeune fille, au contraire, il y a divorce entre sa condition proprement humaine et sa vocation féminine. Et c’est pourqoui l’adolescence est pour la femme un moment si difficile et si décisif. Jusqu’alors elle était un individu autonome: il faut renoncer à sa souveraineté. Non seulment elle est déchirée comme ses frères, et d’une manière plus aigüe , entre le passé et l’avenir; mais en outre un conflit éclate entre sa revendication originelle que est d’être sujet, activité, liberté, et d’autre part ses tendances érotiques et les sollicitations sociales qui l’invitent à s’assumer comme objet passif. Elle se saisit spontanément comme l’essentiel: comment se résoudra-t-elle à devenir l’inessentiel? Mais si je ne peux m’accomplir qu’en tant qu’Autre, comment renoncerai-je à mom Moi? Tel est l’angoissant dilemme devant lequel la femme en herbe se débat. Oscillant du désir au dégoût, de l’espoir à la peur, refusant ce qu’elle appelle, elle est encore en suspens entre le moment de l’indépendance enfantine et celui de la sousmission féminine: c’est cette incertitude qui lui donne au sortir de l’âge ingrat un goût acide de fruit vert.” Simone de Beauvoir, Le Deuxième Sexe Vol. II, p. 98/99
Miller.
Junho 9, 2009“Você é o crivo pelo qual minha anarquia passa e se decompõe em palavras. Atrás da palavra está o caos. Cada palavra é uma tira, um traço, mas não existe, nem nunca existirão, traços suficientes para fazer a trama.” Henry Miller, Trópico de Câncer.
A Contorcionista.
Maio 27, 2009
É necessário que todos se convençam do próprio cinismo e proclamem em voz alta a própria imprudência. Assim, advirto cada um de vocês de que não quero mais esperar, perdoar e confiar em falsas expectativas. A vida é breve. “O tempo passa e nos carrega com ele: o momento em que falo já está longe de mim.” O tempo passa e eu me canso. Envelheço e embruteço. Perco o amor depositado em cada sonho. Passo a considerar tudo vão. Ao redor de mim é puro vazio. Ao redor de mim! Ai, quem me dera existisse um contexto. Algo para além dos meus braços e pernas: um horizonte no qual eu pudesse depositar a minha vista. Mas, não existe o horizonte. Diante de mim resto sozinha: não há braços que enlacem as minhas pernas. Existem as minhas pernas que se contorcem e se aninham nos meus próprios braços. O amor é sem importância. E, como pesa a desimportância: ela tem o meu próprio peso. Mas, já não suporto esse peso. Estou de ponta-cabeça: torcida e retorcida. As minhas mãos não se apoiam: simplesmente não se alcançam. Daquilo que me faço pesar ao desequilíbrio basta um passo. Tropeço. Despenco. Lamento sentir a minha cabeça girar entre os meus braços e as minhas pernas. Não existe tragédia no meu sofrimento. A minha queda mostrou-se uma pirueta. E, eu, caricata, metade bicho, metade artista de circo, sou a mentira burlesca para quem a plateia se desmanchou em risos.
16/09/08: Inquisição e Desabafo.
Maio 21, 2009O perigo das filosofias dos universais está em encontrar na razão o fundamento para toda e qualquer espécie de despautério. Cito um exemplo: a falsa neutralidade diante de fatos históricos que acarretam na supressão do indivíduo.
Hoje na sala de aula o professor nos fez refletir sobre a Inquisição Espanhola. Diante de uma turma de 15 alunos dos quais um deles era uma freira escutei a seguinte frase: a Igreja, enquanto instituição, e a grande maioria dos seus membros, acreditava ao tempo da Inquisição que faziam o bem. Daí não ser possível julgar cada um daqueles inquisidores que estavam cumprindo o seu dever.
É engraçado notar que este foi exatamente o argumento utilizado por Goering e Eichmann durante os seus julgamentos em Nuremberg e Jerusalém, respectivamente. Acredito que cumprir ordens seja uma coisa maravilhosa, e que de certa forma nos dê a sensação de total isenção de responsabilidade pelos nossos atos, afinal não estamos agindo por conta própria, mas representamos uma realidade seja ela um regime político ou uma religião.
Assim, não se pode julgar a ação de indivíduos que participavam de uma instituição que durante pelo menos quatro séculos conseguiu acabar com a maior e mais próspera comunidade judaica entre o mundo cristão e islâmico. Só para constar, existiam na Espanha até o final do século XIV mais de meio milhão de Judeus organizados em pelo menos 120 comunidades. Mas, é aquilo: para alguns não se pode julgar a Santa Inquisição porque este foi o movimento da história, ou o movimento da razão na história, para que se cumprisse o princípio de se efetivar a Idéia de liberdade.
Este é o respeito que as filosofias dos universais emprestam ao indivíduo enquanto singularidade radical. Toda e qualquer escolha feita por nós é irrelevante porque somos desde já apenas a realização do universal. Desta maneira estas filosofias justificam pela razão que opera a si mesma a crueldade de homens como Torquemada, Deza e Valdéz; ou mais recentemente homens como Hitler, Goering, Eichmann, Himmler, etc.
Eu pensava sobre este assunto quando um aluno ergueu a mão e perguntou: então, não se pode dizer nada de Torquemada, como não se pode dizer nada de Hitler, ou do General Medici? Ao que foi respondido: “a distancia temporal dos fatos históricos colaboram para demonstrar que o espírito do mundo estava presente nos atos daqueles homens, mas não se pode dizer o mesmo de Medici porque a ditadura militar na America Latina foi um projeto criado pelos americanos não representando qualquer efetivação da idéia de Liberdade, e sim uma corrupção da ação por interesses particulares.” (Ao que se entende em linguagem vulgar: pimenta no cú dos outros é refresco.)
Neste exato momento o menino sentado ao meu lado falou: você parece um pouco doente. E respondi: é, tenho náusea. Acho que vou para casa.
Daí peguei as minhas coisas e atravessei a porta da sala, e se não fosse a presença de dois amigos para dividir uma coca-cola eu teria descompensado. Porque durante toda minha vida ouvi repetidas vezes que determinados fatos históricos estavam no passado sem emprestar maiores conseqüências para a realidade presente. Mas eu vivo a conseqüência de fatos passados e sofro por eles até hoje graças aos homens que dedicados aos seus ofícios resolveram cumprir ordens e por isso, segundo alguns, não merecem ser julgados.
Não estou pedindo para que as pessoas sintam dó das famílias que se acabaram, dos homens que foram torturados, das crianças que foram queimadas. Não estou pedindo para que se coloquem no lugar dessas pessoas porque seria hipócrita querer incutir nos outros o sentimento que pertence apenas a mim e outros poucos. Mas, peço apenas para que exista coerência nas suas falas para que assim a razão possa se demonstrar. Se a virtude está no meio, eu pergunto: onde está o meio?
http://www.fotolog.com.br/lust4life/58417011
Ladino.
Maio 18, 2009
Axérico de quinze años
Su ermozura es una.
Ya así empezó azer el amor
Como una criatura.
Siete ciudades yo pasí
De París asta Londra
Y como tí, yo no topí
Aunque sos morena.
A morena, morena de mi corazón
Con un beso y un abrazo
Dámelo tu con amor
Sabrás mi morena
Que por tí me muero yo.
Prévert
Maio 9, 2009Falência multipla das nossas capacidades morais.
Abril 30, 2009Ser com o outro custa muito e acaba nos fazendo sentir permanentemente frustrados. É como se a linguagem não fosse suficiente para expressar a verdadeira dimensão daquilo que sentimos no instante em que aquele outro se torna essencial para as nossas vidas, ao mesmo tempo em que ele repele a espontaneidade de algumas atitudes nossas, provocando uma agoniante sensação de cansaço.
Em algum lugar do passado.
Abril 26, 2009“Nasci e cresci num apartamento muito pequeno, ao rés-do-chão, de teto baixo e medindo uns trinta metros quadrados: meus pais dormiam num sofá-cama que, ao ser aberto à noite, ocupava praticamente todo o espaço do quartinho deles. De manhã bem cedo, enfiavam esse sofá bem enfiado dentro dele mesmo, sumiam com a roupa de cama no escuro do caixote que lhe servia de base, viravam, encaixavam, empurravam e comprimiam o colchão, e estendiam uma forração cinza-clara sobre o sofá devidamente fechado e bem prensado. Por fim, espalhavam algumas almofadinhas orientais bordadas, fazendo desaparecer da vista qualquer vestígio do sono noturno. Deste modo, o quarto de dormir servia também de escritório, de biblioteca, de sala de jantar e de sala de visitas.” Oz, Amós. De Amor e Trevas, p.7.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.