16/09/08: Inquisição e Desabafo.

Maio 21, 2009

O perigo das filosofias dos universais está em encontrar na razão o fundamento para toda e qualquer espécie de despautério. Cito um exemplo: a falsa neutralidade diante de fatos históricos que acarretam na supressão do indivíduo. 

Hoje na sala de aula o professor nos fez refletir sobre a Inquisição Espanhola. Diante de uma turma de 15 alunos dos quais um deles era uma freira escutei a seguinte frase: a Igreja, enquanto instituição, e a grande maioria dos seus membros, acreditava ao tempo da Inquisição que faziam o bem. Daí não ser possível julgar cada um daqueles inquisidores que estavam cumprindo o seu dever.

É engraçado notar que este foi exatamente o argumento utilizado por Goering e Eichmann durante os seus julgamentos em Nuremberg e Jerusalém, respectivamente. Acredito que cumprir ordens seja uma coisa maravilhosa, e que de certa forma nos dê a sensação de total isenção de responsabilidade pelos nossos atos, afinal não estamos agindo por conta própria, mas representamos uma realidade seja ela um regime político ou uma religião.

Assim, não se pode julgar a ação de indivíduos que participavam de uma instituição que durante pelo menos quatro séculos conseguiu acabar com a maior e mais próspera comunidade judaica entre o mundo cristão e islâmico. Só para constar, existiam na Espanha até o final do século XIV mais de meio milhão de Judeus organizados em pelo menos 120 comunidades. Mas, é aquilo: para alguns não se pode julgar a Santa Inquisição porque este foi o movimento da história, ou o movimento da razão na história,  para que se cumprisse o princípio de se efetivar a Idéia de liberdade. 

Este é o respeito que as filosofias dos universais emprestam ao indivíduo enquanto singularidade radical. Toda e qualquer escolha feita por nós é irrelevante porque somos desde já apenas a realização do universal. Desta maneira estas filosofias justificam pela razão que opera a si mesma a crueldade de homens como Torquemada, Deza e Valdéz; ou mais recentemente homens como Hitler, Goering, Eichmann, Himmler, etc. 

Eu pensava sobre este assunto quando um aluno ergueu a mão e perguntou: então, não se pode dizer nada de Torquemada, como não se pode dizer nada de Hitler, ou do General Medici? Ao que foi respondido: “a distancia temporal dos fatos históricos colaboram para demonstrar que o espírito do mundo estava presente nos atos daqueles homens, mas não se pode dizer o mesmo de Medici porque a ditadura militar na America Latina foi um projeto criado pelos americanos não representando qualquer efetivação da idéia de Liberdade, e sim uma corrupção da ação por interesses particulares.” (Ao que se entende em linguagem vulgar: pimenta no cú dos outros é refresco.)

Neste exato momento o menino sentado ao meu lado falou: você parece um pouco doente. E respondi: é, tenho náusea. Acho que vou para casa. 

Daí peguei as minhas coisas e atravessei a porta da sala, e se não fosse a presença de dois amigos para dividir uma coca-cola eu teria descompensado. Porque durante toda minha vida ouvi repetidas vezes que determinados fatos históricos estavam no passado sem emprestar maiores conseqüências para a realidade presente. Mas eu vivo a conseqüência de fatos passados e sofro por eles até hoje graças aos homens que dedicados aos seus ofícios resolveram cumprir ordens e por isso, segundo alguns,  não merecem ser julgados.

Não estou pedindo para que as pessoas sintam dó das famílias que se acabaram, dos homens que foram torturados, das crianças que foram queimadas. Não estou pedindo para que se coloquem no lugar dessas pessoas porque seria hipócrita querer incutir nos outros o sentimento que pertence apenas a mim e outros poucos. Mas, peço apenas para que exista coerência nas suas falas para que assim a razão possa se demonstrar. Se a virtude está no meio, eu pergunto: onde está o meio?

http://www.fotolog.com.br/lust4life/58417011

 


Ladino.

Maio 18, 2009

 

Axérico de quinze años
Su ermozura es una.

Ya así empezó azer el amor
Como una criatura.

Siete ciudades yo pasí
De París asta Londra

Y como tí, yo no topí
Aunque sos morena.

A morena, morena de mi corazón
Con un beso y un abrazo
Dámelo tu con amor
Sabrás mi morena
Que por tí me muero yo.


Yom HaShoah

Abril 22, 2009

21 de abril: Dia da Inquisição

Pedro de Albuquerque // Escritor 

 

pedrodealbuquerque@gmail.com
http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/04/21/opiniao.asp


Hoje, não é apenas data nacional de Israel. Mas, uma vitória das federações israelitas dispersas por todo o Ocidente. Também uma vitória de todas as entidades democráticas de luta das minorias por inserção e igualdade social contra a opressão dominante e os regimes totalitários. O que faz discernir que qualquer forma de dominação social, seja de direita ou de esquerda, laica, ateia, teocrática ou de economia planificada, é sempre crime hediondo contra a humanidade por coibir a livre consciência. É preciso, pois, manter viva memória dos horrores do Nazismo. Também, do absolutismo sanguinário de Stalin com os seus sessenta milhões de assassinados. Quase dez vezes mais do que Hitler. Dentre os quais milhões de camponeses indefesos a quem os líderes da Revolução Bolchevista juraram defender e promover.

Bem, hoje não é o Dia da Inquisição. Sim do Holocausto: Yom Ha-Shoah, em que se celebra a heroica insurreição do Gueto de Varsóvia em 19 de abril de 1943 contra as forças do III Reich. Dia do resgate da dignidade do povo judeu. Dia de irrestrita e incondicional solidariedade de Israel e a Diáspora. Dia de honrar José Al Buquer: líder da resistência judia na Argélia e coordenador do desembarque das “Tropas Aliadas” de libertação do Norte da África. Ler Howard Sachar em seu: “Farewell España: A Sephardi Remembrance”.

Mas, deveria mesmo ser o Dia da Inquisição em fato e razão do Holocausto ter sido o “grand finale” da satânica Ópera da Inquisição. Um processo instaurado pela Igreja de Roma, a perdurar por setecentos anos, para o aniquilamento da identidade de um povo pela supressão da sua memória. Contando, o terror religioso, inúmeras vítimas emparedadas vivas no Limoeiro (Palácio da Inquisição, hoje, desrespeitosamente, o mesmo prédio do Teatro Nacional de Lisboa ) ou mortas calcinadas em fogueiras no seu pátio externo: atual Praça Dom Pedro I. Isto em sádicos festivais de toda farra e pompa: os Autos de Fé. Com bispos e cardeais ostentando os seus ricos paramentos custeados com os haveres usurpados dos condenados, cujos filhos eram remetidos à Casa dos Órfãos. De lá, as “fêmeas” vendidas para as colônias onde faltavam mulheres brancas e os “machos” mandados como escravos para a Ilha da Madeira. Ou vendidos, em sua maioria, aos potentados do Império Otomano para serem castrados e lá servirem de eunucos ou de amantes passivos. Isto com a receita das suas vendas revertida em favor das ordens religiosas Franciscana e Dominicana: cuja indumentária negra inspirou o figurino das “SS” dos campos alemães de extermínio.

Também, dia de se refletir sobre a pequena Anne Frank, condenada pela covardia. A covardia de todos nós quando silenciamos ante as forças de ideologização a serviço do totalitarismo. Qualquer totalitarismo. Contemporaneamente o do Hamas: flagelo do Povo Palestino em Gaza. Quando da minha última estada em Amsterdã, trinta breves dias, um lapso de eternidade, estive no refúgio de Anne Frank no sótão de um antigo sobrado. Dos muitos sobrados daquela cidade que somente respira o amor, a liberdade, a tolerância, a fraternidade e a igualdade. Isto sem o olor de Paris: de sangue derramado. É que toda revolução é assassina. Amsterdã, a cidade da esperança dos nossos antepassados, sobre a qual a Inquisição, por derradeiro, deitou a sua tenebrosa sombra na versão da cumplicidade tácita da Concordata do Papa Pio XII: o Holocausto.

 

 

Dia de se refletir sobre os milhões de vítimas da Inquisição. Vítimas até hoje. Todos nós cristãos-novos de batismo forçado: “judeus-velhos” no dizer do Padre Antônio Vieira. Todos nós brasileiros de mais ou menos acentuada ascendência ibérica e, ou, de mais ou menos acentuada ascendência europeia oriental. Ou dessas duas etnias com os tupynabah e com outros mais das muitas tribos de África miscigenadas: brasilidade!


Nietzsche.

Julho 2, 2008

 ”The psychology of the orgiastic as an overflowing feeling of life and strength, where even pain still has the effect of a stimulus, gave me the key to the concept of tragic feeling, which had been misunderstood both by Aristotle and even more by modern pessimists. Tragedy is so far from being a proof of the pessimism (in Schopenhauer’s sense) of the Greeks that it may, on the contrary, be considered a decisive rebuttal and counterexample. Saying Yes to life even in its strangest and most painful episodes, the will to life rejoicing in its own inexhaustible vitality even as it witnesses the destruction of its greatest heroes — that is what I called Dionysian, that is what I guessed to be the bridge to the psychology of the tragic poet. Not in order to be liberated from terror and pity, not in order to purge oneself of a dangerous affect by its vehement discharge — which is how Aristotle understood tragedy — but in order to celebrate oneself the eternal joy of becoming, beyond all terror and pity — that tragic joy included even joy in destruction”  F. Nietzsche, The Birth of Tragedy.


Quote!

Março 27, 2008

“(…) É possível que, a despeito de invenções e progressos, a despeito da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado à superficie da vida? É possível que se tenha recoberto mesmo esta superfície – que no fim e ao cabo seria ainda alguma coisa – com uma substância incrivelmente enfadonha, que a torna parecida com móveis de salão durante férias de verão?” Rilke, Os Cadernos de Malte L. Brigge.


Ernildo Stein.

Março 1, 2008
“Esse não-limite, esse excesso inserido na reflexão, permanece, de antemão, o horizonte frustrante de toda interrogação na imanência, no limite, na finitude. A preocupação central da filosofia será, então, romper sempre a barreira do finito, tender para o ilimitado e, a partir dele, compreender a reflexão filosófica. Isso instaura uma atitude negativa da interrogação na finitude e impede a adequada compreensão da condição humana do filosofar, em si mesma. Todo esforço se dispenderá em abrir caminhos para o “outro lado” (epekeina) e a verdadeira seriedade consistirá em manter aberto o horizonte virtualmente infinito pela transcendência, pela analogia ou pela dialética. Esquece-se, assim, de interrogar por que ela mantém a exigência contínua de uma abertura. Omite-se o fato de que, precisamente, a busca do ilimitado é a afirmação do limite, de que a necessidade do horizonte infinito é uma imposição da radical finitude. Assim, não se toma suficientemente a sério a finitude como o chão de toda experiência de ser.  Para compreender o verdadeiro movimento da interrogação na finitude não basta ao finito o infinito, ao mundo da experiência humana o ser subsistente, ao temporal o eterno, seja através da analogia, da dialética ou da reflexão transcendental. O que, assim, se abre permanece exigência. Mas, o modo de responder a ela se realiza pelo movimento da finitude. Somente assim, se respeitará a positividade da finitude. Somente dessa maneira, a partir da análise da finitude do homem, será possível determinar o ser do que é eterno, atemporal, subsistente ou infinito. Caso contra´rio, o transcendental será apenas um álibi da finitude e não será compreendido na sua dimensão positiva. Caso contrário, tanto o finito como o infinito serão pensados apenas negativamente, sendo ambos a negação um do outro. Uma filosofia, que procura pensar seriamente a condição da interrogação na finitude, surge, então como um movimento que segue a direção oposta à da tradição. Ela renuncia ao modelo absoluto da reflexão autotransparente, da noesis noeseos, da consciência transcendental, presente, tanto na filosofia da substância, como na filosofia da subjetividade. Tal filosofia não partirá, portanto, dos pressupostos de uma teologia natural. É, por isso, evidente que uma tal interrogação será dotada de uma estrutura básica fundamentalmente diferente da tradição filosófica. Simplesmente porque ela parte de uma dimensão essencialmente finita, radicada na finitude do homem, seu modo de colocar a questão do ser e da verdade se afirmará numa outra perspectiva. A direção de tal filosofia será oposta à da metafísica da luz que perpassa a tradição. O problema do ser e da veradade surgirá da própria análise da finitude da condição humana, da finitude da interrogação pelo ser e pela verdade.” Ernildo Stein, Compreensão e Finitude: estrutura e movimento da interrogação heideggeriana, p. 22-23.

Quote!

Janeiro 25, 2008

“Como alguns são conservadores de um museu ou de uma sala de medalhas, outros se fazem os conservadores do mundo dado; acentuando os sacrifícios que toda mudança necessariamente implica, eles optam pelo que foi contra o que ainda não é.” Simone de Beauvoir, Por uma Moral da Ambigüidade.

 


Serge Gainsbourg.

Janeiro 16, 2008

“You know, I was having lunch with some guys from NBC, so I said, ‘Did you eat yet or what?’ And Tom Christie said, ‘No, JEW?’ Not ‘Did you?’…JEW eat? JEW? You get it? JEW eat?” Woody Allen

 

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Desde que postei “Pensamentos Soltos” sinto vontade de escrever algo sobre a postura engajada que Serge Gainsbourg adotou quando finalmente adquiriu fama nacional no cenário artístico francês. Aliás, essa minha vontade é velha e data da ocasião em que lí pela primeira vez a biografia escrita por Sylvie Simmons. Todavia, no ano passado o tempo e as obrigações com congressos, eventos, publicações, faculdade e trabalho me deixaram sem perspectivas de reabrir o blog e fazer um texto legal.

Bem, foi em setembro que recebi na minha casa a caixinha com o exemplar usado de A Fistful of Gitanes que comprei da Kent Regional Library. Lembro que estava terminando de ler Cartas a Nelson Algren e não pude esperar para devorar os primeiros capítulos da biografia. Afinal, desde 2006 Serge e eu nos tornamos grandes amigos. Tudo culpa de Querétte que me enviou a mp3 de “69 année érotique” fazendo reacender a chama dos anos que passei assistindo Absolutely Fabulous.

Naquela ocasião abandonei Simone de Beauvoir e fui para cama com Serge. Esperava encontrar evidencias que me tornassem mais familiarizada com a ironia cortante e o sarcasmo amargo característicos das suas músicas. Mas, por fim acabei descobrindo histórias muito mais interessantes. Uma delas se refere a vida do pequeno Lucien Ginsburg nos anos da ocupação:

“When France declared war on Germany in the summer of 1939, Lucien did not really notice. He was 11 years old, and the family had left Paris to live in Dinard on the Normandy coas, a resort where Joseph had landed a long residency. For Lulu it was one big summer holiday – not as exciting as wehn his father had a six-month assignment in Algiers and took his wife and children to be with him, perhaps – but Dinard had the bonus of a huge bonfire and fireworks display. Or that’s how the sight of British troops setting fire to the coastal petrol reserves appeared to the boy at the time. But back in Paris by the following summer, things were very different. The Germans had taken the city. Government-sanctioned anti-semitism was officiallu launched. A law was passed requiring all Jews to register. The practical Olia hadn’t wanted to, but Joseph insisted that they were now French – which despite their strong Russian accents and taste for borscht and vodka he considered them to be – they should respect their adoptive country’s laws. There were murmurs among the Jewish community of disappearances. Work – especially in the more visible jobs like journalism, art, theathre – was becoming harder for Jews to get as grafitti appeared across the city accusing them of stealing Frenchmen’s jobs. The Ginsburgs didn’t live in a Jewish community, they didn’t keep a kosher house or go to the synagoge; for a while at least, Joseph must have thought he was immune. Certainly life went on for the family with some semblance of normality. Joseph was still being paid to play piano at the Cabane Cubaine, and was earning enough to encourage his sun’s growing interests in painting by enrolling him in an art school in Montmartre. (…) But while Lulu got better, Paris got worste. In 1942 the government issued the directive that all jews over the age of six had to wear a yellow star – the size of a hand with Juif written on it in black – clearly visible on their outer garments whenever they left the house. “His father would make them iron them so that they would look clean and proper for the French government” said Jane [Birkin]. “Serge would say that wearing the Jewish star was like being the sheriff and that he’d grown up under a good star, yellow.” He might have joked about it later, but in truth it cut the sensitive adolescent to the core. “For me,” he said in an interview more than 30 years later “it is indelible. A young boy wearing the star – it was like you were a bull, branded with a red-hot iron.” It was humiliation, a sign to everyone to see that you were part of a powerless group, officially despised, increasingly vilified in the press and open to physical attack from strangers. “Even at 13, 14 years old, I had already become an outsider, because the though guy wasn’t me”. He fled into a smoky fantasy world of literature and cheap cigarrets (a heavy adolescent P4 havit – the French equivalent to Players n° 6). “By reading the great story tellers, Perrault, Grimm, Anderson, Hoffman” he said “I already escaped”. (…) He remembered that day at the Art Academy – a safe heaven of sanity in all the madness going on around it – when he had sat in a classroom, drawing right next to a German officer. And he spoke with bitternes of the way some of his father’s fellow-musicians had begun to treat him, telling him, “You, you’ve no right to be in this orchestra – you’re a Jew, get lost.” (…)” Serge Gainsbourg – A Fistful of Gitanes by Sylvie Simmons.

Isso me deixou impressionada, principalmente depois que evolui na leitura e constatei o grande desvio (ou redirecionamento) de referencial que S.G. sofreu pelos traumas que carregou daquele tempo. Sem querer fazer menção à neurose de Woody Allen nas primeiras cenas de Annie Hall , e exatamente por não considerar os sentimentos de estrangeirice e isolamento muito saudáveis enquanto nos são impostos por um ato de violência do Outro, fico repetindo constantemente em minha mente a frase de Lévinas que postei na semana passada: precisamos determinar com máxima urgência se não estamos sendo realmente enganados pela moral. Afinal, os valores que supostamente deveriam nos libertar muitas vezes nos transformam em escravos de toda espécie de preconceito.

Inconscientemente esse tipo de questionamento não foi feito pela própria autora da biografia quando ela diz não compreender muito bem o que levou Gainsbourg a presentear o Estado de Israel com uma canção para a Guerra dos Seis Dias (1967). Ora, ela mesma conta no livro que numa entrevista perguntaram ao velho Gainsbarre quais eram as verdadeiras raízes de sua música, para o que ele respondeu dentre outras coisas que não lhe podia escapar a idéia de que era um músico judeu basicamente influenciado pela nostalgia que carregava no próprio sangue.

E mesmo quando compunha reagges ele não se deixava calar diante do fantasma do anti-semitismo. Se pegarmos a letra de Juif et Dieu veremos que além de não deixar de lado a sua marca de grande gozador ele encontra uma forma de impor aos outros a sua própria identidade:

“Et si Dieu était juif ça t’inquièterait petite ?
Sais tu que le nazaréen
n’avait rien d’un aryen
et s’il est fils de Dieu comme vous dites
alors

Dieu est juif
Juif et dieu.”

Estaria louca se fosse jogar o rótulo de artista engajado em Gainsbourg caso mencionasse para isso apenas duas músicas dentro da sua vasta discografia. Assim, deixo a sugestão para os navegantes de escutarem o LP que lançou em 1975 chamado Rock Around the Bunker composto pelas seguintes músicas:

1 – Nazi Rock
2 – Tata Teutonne
3- J’entends des Voix Off
4 – Eva
5 – Smoke get in your eyes
6 – Zig Zig avec Toi
7 – Est-ce est-ce si Bon
8 – Yellow Star
9 – Rock around the Bunker
10 – S.S. in Uruguay

Volto a falar sobre o tema de forma mais específica quando terminar de refletir sobre alguns pontos que Sartre levantou sobre o anti-semitismo em A Questão Judaica.

 

P.S: quem prestar atenção no vídeo de Les Soldats et le Sable vai bater de cara com uma imagem de Moshe Dayan. =P


Pensamentos Soltos.

Janeiro 6, 2008

 

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Mesmo que a minha opinião pareça furada hoje irei escrever algumas linhas sobre o grande mal que nos assola: o conservadorismo. Outro dia no Stumble Upon esbarrei num relatório de determinada universidade americana anunciando os resultados de uma pesquisa sobre o que formaria a mente de um conservador. Entre os vários fatores apontados estavam lá o gosto por discursos certos e infalíveis e a exclusão da ambigüidade no seio da realidade social. O que isso quer dizer?

Discursos certos e infalíveis são aqueles que desconsideram a dúvida, ou o argumento negativo apresentando soluções ou idéias bastante claras e lógicamente corretas apesar de falaciosas. Assim, tais discursos apoiados na falência da verdade, mesmo sob o pretexto de atingirem a sociedade como um todo passam a contribuir unicamente com determinado grupo geralmente oposto a qualquer mudança no cenário político, ou simplesmente incapaz de se insurgir contra as estruturas apodrecidas do poder, seja por interesse de perpetuar-se numa situação, seja por total e completa ignorância.

Por isso, o poder do discurso conservador é avassalador. Considerando que tanto a má-fé quando a ignorância dos seus seguidores se alimenta únicamente de preconceitos, não se faz questão de incorporar a diferença, a contradição e a novidade no seu conteúdo. De onde podemos tirar que através dele se opera de forma brutal a exclusão da ambigüidade tão marcante nos fenômenos sociais e imprescidível para reciclagem de antigos valores morais.

Se operarmos uma pequena análise veremos que mesmo vociferando o ideal de “igualdade” o conservador lhe encara como excludente qualquer termo que se lhe opunha formalmente, e não como um princípio de que todos são iguais na medida em que se constituem como diferentes, visto que em verdade toda identidade é identidade da identidade e da diferença. Assim, para o homem burguês, heterossexual, conservador, branco e cristão encontram-se terminantemente marginalizados os judeus, as mulheres, os negros, os gays e os pobres.

Não importa o quão travestida de democrática seja a sua atitude, o conservador jamais será capaz de experenciar o verdadeiro reconhecimento. Sustentando-se apenas como senhor numa situação de submissão do seu outro, e portanto igualmente sua, ele mesmo se transforma em escravo da sua própria contingencialidade. Sendo mesmo impossível considerar na sua figura superior e tolerante qualquer traço de liberdade.

Fico verdadeiramente chocada com algumas opiniões que escuto pelo meio da rua. Ontem um rapaz alegou que todas as mulheres de vida sexual ativa seriam grandes vagabundas. Certo que fez isso de maneira indireta usando qualquer argumento machista, mas todos na mesa caíram na gargalhada.

A história poderia ser realmente ridícula não fosse patética. Acontece que enquanto procurava afirmar o seu ponto de vista bastante lúcido (isso é piada…), abraçava a namorada e lhe cobria de beijos. A menina, por sua vez apenas sorria. E, não parecíamos estar diante de grandes conservadores. Ambos vestiam-se como representantes da sociedade alternativa: piercings, tattoos, all star shoes…

Imagine! Na mesma noite antes de sair de casa estava conversando sobre o caso Heidegger x Hannah Arendt (voltarei a tratar desse assunto em outro tópico) e relembrei a fala de um colega que qualificava todo e qualquer judeu como incapaz de amar. Faz seis meses escutei essa frase pela primeira vez e fiquei completamente sem reação. Tanto mais porque parecia sair da boca de uma pessoa esclarecida e apesar de bastante jovem antenada no meio intelectual.

Esses pensamentos corriam soltos na minha cabeça, e quando atravessei o meu portão novamente às 3:00 da manhã não consegui mais relaxar. Algumas coisas me pertubavam bastante: a persistência do preconceito de gênero, o anti-semitismo (voltarei a esse tema em outro post) e direito que os conservadores nos conferem de não reagir as falsas acusações que nos jogam nos ombros.

Quando indiretamente sou chamada de vagabunda e insensível devo ficar calada. Mas, será que ninguém entende que não é certo permanecer calado por mais enraizado que esse comportamento esteja em nosso meio? A que custo se sustenta a falsa democracia e a tolerância demagógica dos conservadores? Será que deveremos sempre pagar pelos seus caprichos com a nossa liberdade?

Tenho um problema antigo com essa tal coisa chamada liberdade. Da época de escola, onde nossas diferenças começam a ser massacradas por uma certa quantidade de professores medíocres e uma maioria de colegas de turma perfeitamente imbecilizados ao período de Faculdade, quando a história só faz piorar ficamos tão desesperados que passamos a considerar como única saída para todo aquele sofrimento nos tornarmos iguais a todos eles: assimilados e assimiláveis.
Quantas pessoas já não se deixaram enganar por essa aparente solução? Quantas garotas desesperadas pela incompreensão do seu sexo, ou da sua creça pelo próximo, mesmo com inteligência suficiente para discernir entre o verdadeiro e o falso, acharam preferível deixar de viver as suas vidas para encontrar consolo na dependência absoluta do namorado se deixando enganar por um simples gesto de carinho dele e da sociedade, quando por detrás daquilo tudo existia um verdadeiro projeto de dominação? Quantos bailes de 15 anos não marcaram o sepultamento de uma possível mulher, e o nascimento de uma fêmea no sentido mais bestial possível? Sinto muita pena de quem optou por se sentir obrigatoriamente satisfeita com os rótulos de virgem frígida ou grande vagabunda insensível.
E, por isso não fico de mãos atadas diante do conservadorismo. Se podemos conhecer a mente de um conservador temos exatamente os meios necessários para combatê-la e não permanecermos passivos. Não se pode de forma alguma permanecer sem nada dizer ou fazer. É o conservadorismo que busca cercear a nossa liberdade aliado ao alto grau de extremismo em que se encontra mergulhado o mundo. Assim, como aconteceu em outras ocasiões históricas nem tão distantes do nosso presente vivemos um instante em que precisamos (re)aprender a agir – e sobretudo a contestar.