O perigo das filosofias dos universais está em encontrar na razão o fundamento para toda e qualquer espécie de despautério. Cito um exemplo: a falsa neutralidade diante de fatos históricos que acarretam na supressão do indivíduo.
Hoje na sala de aula o professor nos fez refletir sobre a Inquisição Espanhola. Diante de uma turma de 15 alunos dos quais um deles era uma freira escutei a seguinte frase: a Igreja, enquanto instituição, e a grande maioria dos seus membros, acreditava ao tempo da Inquisição que faziam o bem. Daí não ser possível julgar cada um daqueles inquisidores que estavam cumprindo o seu dever.
É engraçado notar que este foi exatamente o argumento utilizado por Goering e Eichmann durante os seus julgamentos em Nuremberg e Jerusalém, respectivamente. Acredito que cumprir ordens seja uma coisa maravilhosa, e que de certa forma nos dê a sensação de total isenção de responsabilidade pelos nossos atos, afinal não estamos agindo por conta própria, mas representamos uma realidade seja ela um regime político ou uma religião.
Assim, não se pode julgar a ação de indivíduos que participavam de uma instituição que durante pelo menos quatro séculos conseguiu acabar com a maior e mais próspera comunidade judaica entre o mundo cristão e islâmico. Só para constar, existiam na Espanha até o final do século XIV mais de meio milhão de Judeus organizados em pelo menos 120 comunidades. Mas, é aquilo: para alguns não se pode julgar a Santa Inquisição porque este foi o movimento da história, ou o movimento da razão na história, para que se cumprisse o princípio de se efetivar a Idéia de liberdade.
Este é o respeito que as filosofias dos universais emprestam ao indivíduo enquanto singularidade radical. Toda e qualquer escolha feita por nós é irrelevante porque somos desde já apenas a realização do universal. Desta maneira estas filosofias justificam pela razão que opera a si mesma a crueldade de homens como Torquemada, Deza e Valdéz; ou mais recentemente homens como Hitler, Goering, Eichmann, Himmler, etc.
Eu pensava sobre este assunto quando um aluno ergueu a mão e perguntou: então, não se pode dizer nada de Torquemada, como não se pode dizer nada de Hitler, ou do General Medici? Ao que foi respondido: “a distancia temporal dos fatos históricos colaboram para demonstrar que o espírito do mundo estava presente nos atos daqueles homens, mas não se pode dizer o mesmo de Medici porque a ditadura militar na America Latina foi um projeto criado pelos americanos não representando qualquer efetivação da idéia de Liberdade, e sim uma corrupção da ação por interesses particulares.” (Ao que se entende em linguagem vulgar: pimenta no cú dos outros é refresco.)
Neste exato momento o menino sentado ao meu lado falou: você parece um pouco doente. E respondi: é, tenho náusea. Acho que vou para casa.
Daí peguei as minhas coisas e atravessei a porta da sala, e se não fosse a presença de dois amigos para dividir uma coca-cola eu teria descompensado. Porque durante toda minha vida ouvi repetidas vezes que determinados fatos históricos estavam no passado sem emprestar maiores conseqüências para a realidade presente. Mas eu vivo a conseqüência de fatos passados e sofro por eles até hoje graças aos homens que dedicados aos seus ofícios resolveram cumprir ordens e por isso, segundo alguns, não merecem ser julgados.
Não estou pedindo para que as pessoas sintam dó das famílias que se acabaram, dos homens que foram torturados, das crianças que foram queimadas. Não estou pedindo para que se coloquem no lugar dessas pessoas porque seria hipócrita querer incutir nos outros o sentimento que pertence apenas a mim e outros poucos. Mas, peço apenas para que exista coerência nas suas falas para que assim a razão possa se demonstrar. Se a virtude está no meio, eu pergunto: onde está o meio?
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Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K. 
