Zaza

Outubro 21, 2009

” Quelle ardeur de vie dans vos deux lettres! Vous me faites presque peur, la peur qu’on a devant une belle auto lancée à pleine vitesse en imaginant un instant ce qui arriverait si le moindre boulon venait à lâcher. Je comprends bien cette joie totale d’exister, bien que je ne l’éprouve jamais que passagèrement; très vite je vois le but de cette course, cela n’enlève pas pour moi leur prix aux choses, cela m’empêche de m’y abandonner complètement : que sert à l’homme de gagner l’univers ?… C’est toujours cela qui revient. Mais ne croyez pas que je veuille maintenant diminuer votre bonheur, j’y prends au contraire une part si grande qu’après avoir lu votre lettre je suis prise, moi aussi, par la douceur de la vie, même par un certain désir d’être plus activement heureuse que je ne suis, de donner, de recevoir, d’agir, d’aimer, de vivre.”

Association Zaza


Relações de alteridade nos grupos primários da sociedade pernambucana.

Agosto 27, 2009

Texto que escrevi e que postei no Recife não é Manhattan (o meu antigo blog) em 03 de Janeiro de 2007 :

Um rabino cabalista explica os prejuízos causados pela energia negativa, e eu luto contra o moralismo disfarçado de ética. Procuro me situar no universo em que estou inserida e, finalmente, encontro a resposta para todos os meus problemas:

Recife não é Manhattan.
Manhattan não é Paris.
Eu não faço parte deste mundo.

Numa cidade em que as relações de alteridade são postas no futebol, entre um e outro jogo, as pessoas seguem instintos primitivos. O primeiro deles: a sobrevivência. Todos são levados a agir como caranguejos presos em um caçoa*. Mas, o pior de todos os instintos é aquele da perpetuação da espécie.

O pernambucano tem necessidade de afirmação através da sua prole. Ela é a grande motivação da sua vida e simboliza todas as suas frustrações. A relação entre pais e filhos é completamente sem futuro. Nela não existe encontro nem desencontro, apenas uma reprodução dos comportamentos adquiridos. Padrões perpetuados pela ‘boa convivência’ citadina.

Existe o boi e o touro. Nada além de figurações masculinas de força em que a potência foi posta a prova faz tempo. A mulher (vaca, pata ou galinha) trata-se apenas de uma contingência, ou, se preferir, de um mal necessário.

Este é um mundo para lá de Omã. Camus, em toda sua literatura do absurdo, não seria capaz de recriar tão pavoroso cenário. Aqui, além das casas serem voltadas contra o mar, as mentes ensimesmadas atiram-se na total falta de responsabilidade: no que somos faltosos nos socorre a divina providência.

Existir não é prerrogativa do pernambucano. Este se contenta com o uivar do vento em seu juízo. De bar em bar preenche os seus dias. Busca instruir os machos mais novos a buscar o seu mesmo caminho: o mais fácil. Ninguém precisa pensar.

Enquanto isso, em casa, as figuras femininas dividem-se. Seus padrões são aqueles para o acasalamento: cortesia, vulgaridade e amabilidade. A palavra de ordem: sim, eu aceito. Mãe e filha instrumentalizadas pelo mesmo manual. Jamais serão amigas, afinal a humanidade é constantemente negada pela supressão da existência. Filha e esposa, em verdade, completam a mesma figura no imaginário de culpa masculino. É o incesto que assume a covardia em forma de platonismo.

Neste quadro funesto as relações domésticas desembocam no mundo profissional para derramar toda a sua falta de objetividade e propósito. Os projetos e as metas não fazem sentido algum. O que irá importar será a sobrevivência. Sempre o instinto e a perseguição selvagem àquele que se demonstra mais humano.

Vou-me pegar ao rabino. De todos, o menos santo.


Tantas palavras.

Agosto 7, 2009

Tel Aviv é  uma cidade que precisa ser amada. Para tanto, ela se debruça sobre o Mediterrâneo à procura do reconhecimento ocidental. Mas, entre os seus boulevards de atmosfera européia e as suas longas avenidas repletas de espigões à moda norte-americana se esconde uma cidade cuja timidez calcada numa identidade rústica e andarilha impede o desenvolvimento de uma verdadeira capital do oriente.

Capital que se esconde em escombros soterrados por um século de concreto cujo amálgama se traduz num passado errante de suor e de lágrimas.  Quais seriam os segredos e os verdadeiros dramas do mundo que se oculta sob as pedras do asfalto e os alicerces dos shopping centers?

Tel Aviv é  uma cidade fantástica tal o Castelo de Kafka. Talvez eu ainda não a tenha compreendido: talvez! Mas, sei o que sinto e, desavisada, busco romper a superfície. Quero quebrar o chão que sustenta as minhas passadas.  Pois, este chão, ora já se viu, não se quer deixar pisar: não se quer fazer sentir.

Onde está  Tel Aviv? Procuro esquinas: não as encontro. Procuro pessoas: não as percebo. Vejo, enfim, cachorros. Todos eles muito gordos a marcha rumo ao progresso. Mas, não é isso o que eu quero.

Sinal fechado. Os ônibus passam. Os telefones apitam. Enquanto isso eu permaneço no silêncio de D’us. E, lá onde a minha vista se perde as adolescentes plantam os seios verdes nos rostos lisos dos namorados. Preciso de putas! Não quero crianças.

Preciso de vida! Ânima! Drama! Corpos maduros que se abram ao prazer e se deixem consumir pelo sol e pelo trabalho incessante de uma vida cujo o único sentido é se deixar viver. Preciso das mãos que sufocam o gozo preso na garganta para desvirginar o chão. Através delas irei destruir o progresso, desconstruir o Castelo e encontrar a morada no útero da primavera. Pois, não existe a necessidade do amor. Existe apenas a vida.


Miller.

Junho 9, 2009

“Você é o crivo pelo qual minha anarquia passa e se decompõe em palavras. Atrás da palavra está o caos. Cada palavra é uma tira, um traço, mas não existe, nem nunca existirão, traços suficientes para fazer a trama.” Henry Miller, Trópico de Câncer.


A Contorcionista.

Maio 27, 2009

contortionist

É necessário que todos se convençam do próprio cinismo e proclamem em voz alta a própria imprudência. Assim, advirto cada um de vocês de que não quero mais esperar, perdoar e confiar em falsas expectativas. A vida é breve. “O tempo passa e nos carrega com ele: o momento em que falo já está longe de mim.” O tempo passa e eu me canso. Envelheço e embruteço. Perco o amor depositado em cada sonho. Passo a considerar tudo vão. Ao redor de mim é puro vazio. Ao redor de mim! Ai, quem me dera existisse um contexto. Algo para além dos meus braços e pernas: um horizonte no qual eu pudesse depositar a minha vista. Mas, não existe o horizonte. Diante de mim resto sozinha: não há braços que enlacem as minhas pernas. Existem as minhas pernas que se contorcem e se aninham nos meus próprios braços. O amor é sem importância. E, como pesa a desimportância: ela tem o meu próprio peso. Mas, já não suporto esse peso. Estou de ponta-cabeça: torcida e retorcida. As minhas mãos não se apoiam: simplesmente não se alcançam. Daquilo que me faço pesar ao desequilíbrio basta um passo. Tropeço. Despenco. Lamento sentir a minha cabeça girar entre os meus braços e as minhas pernas. Não existe tragédia no meu sofrimento. A minha queda mostrou-se uma pirueta. E, eu, caricata, metade bicho, metade artista de circo, sou a mentira burlesca para quem a plateia se desmanchou em risos.


A Sonata a Kreutzer.

Maio 21, 2009

“Na primavera de 1803, o compositor foi convidado a apresentar em Viena uma sonata inédita para piano e violino. Seu acompanhante neste instrumento foi um jovem mulato, George Bridgetower, filhe de mãe polonesa e pai negro, ex-escravo nas Antilhas, que uma vez na Europa tornara-se valete dos Esterházy, família da aristocracia austro-húngara. O afro-polonês revelou-se desde cedo um prodígio ao violino, tendo sua precocidade comparada à de Mozart. 

Para o concerto de Viena, Beethoven entregou a parte do violino poucas horas antes da apresentação. Ainda assim o espetáculo foi um sucesso. Dizem os relatos que, a certa altura do primeiro movimento, após uma passagem dificílima para o piano, Bridgetower teria inesperadamente recriado o mesmo trecho ao violino, obtendo a aprovação entusiástica de Beethoven, que se ergueu do teclado, correu até ele para saudá-lo, e voltou a tempo de continuar tocando. A performance foi tão arrebatadora que, em seguida, Beethoven anunciou que dedicaria a obra a Bridgetower – e escreveu na partitura: Sonata per un mulaticco lunattico.  

Mais tarde, quando bebiam juntos, o jovem violinista, que, segundo consta, exercia grande atração junto às mulheres, fez um comentário de cunho particular sobre uma dama conhecida de Beethoven. Enfurecido, este pediu de volta a partitura e rasgou a dedicatória, intitulando-a mais tarde Sonata a Kreutzer, em homenagem a Rodolphe Kreutzer, tido então como o maior nome do violino na Europa. George Bridgetower faleceu em 1860, num asilo para indigentes em Londres, inteiramente esquecido pelo mundo musical – e Kreutzer, por sua vez, ao receber a partitura desta que é uma das sonatas mais célebres da história da música, considerou-a impossível de ser tocada e jamais apresentou a obra em público.

Tolstói conhecia a peça de Beethoven, mas voltou a ouvi-la na primavera de 1888 numa apresentação em sua própria casa. O impacto foi tão grand que o escritor retomou uma idéia que já acalentara antes, de escrever um monólogo dramático conturbado, à maneira de Dostoiévski, para ser levado ao palco pelo ator Andreyev-Burlak, também presente naquela audição. 

Trabalhando intensamente neste projeto, e somando a ele o desconforto que experimentava em seu próprio casamento, a leitura de manuais de ginecologia e de conselhos médicos para a gravidez e a higiene feminina, bem como o relatoque ouvira certa vez das angústias de um homem ante a infidelidade de sua esposa, Tolstói condensou, no tempo de uma viagem de trem, uma narrativa de caráter alucinatório, cujos movimentos parecem dialogar com as escalas vertiginosas que piano e violino exploram na obra de Beethoven.

Ainda antes da sua publicação definitiva em 1891, cópias do manuscrito espalharam-se pela Rússia, provocando enorme escânda-lo e respostas variadas, como a de Nikolai Leskov, que escreveu “A propósito de A Sonata a Kreutzer” que se contrapõe à moral severa do autor de Guerra e Paz. Sob qualquer ângulo que seja considerada, entretanto, esta novela de Tolstói constitui uma obra-prima sobre a incompreenão mútua etre homens e mulheres, na qual o andamento inexorável da tragédia não obscurece a lucidez cristalina de sua linguagem” Boris Schnaiderman in Tolstói, A Sonata a Kreutzer.  


Prévert

Maio 9, 2009

“Il y a des gens qui dansent sans entrer en transe et il y en a d’autre qui entrent en transe sans danser. Ce phénomène s’appelle la Transcendance et dans nos régions il est fort apprécié.” Jacques Prévert


Em algum lugar do passado.

Abril 26, 2009

“Nasci e cresci num apartamento muito pequeno, ao rés-do-chão, de teto baixo e medindo uns trinta metros quadrados: meus pais dormiam num sofá-cama que, ao ser aberto à noite, ocupava praticamente todo o espaço do quartinho deles. De manhã bem cedo, enfiavam esse sofá bem enfiado dentro dele mesmo, sumiam com a roupa de cama no escuro do caixote que lhe servia de base, viravam, encaixavam, empurravam e comprimiam o colchão, e estendiam uma forração cinza-clara sobre o sofá devidamente fechado e bem prensado. Por fim, espalhavam algumas almofadinhas orientais bordadas, fazendo desaparecer da vista qualquer vestígio do sono noturno. Deste modo, o quarto de dormir servia também de escritório, de biblioteca, de sala de jantar e de sala de visitas.” Oz, Amós.  De Amor e Trevas, p.7.


Boa Vista: o Recife é aqui.

Abril 22, 2009

O sol queima a pele dos negros e você segue intocada entre as sombras e as cinzas caminhando pelas calçadas. O Recife não está ali: ele foge em passos embriagados até o seu fim, num salto para dentro do ventre podre de uma cadela sem plumas: uma desconhecida mendiga de pernas abertas que reflete o imponente casario abandonado da Rua da Aurora.

O Recife foge num mergulho e vence a inércia histórica da Faculdade de Direito: o mausoléu de Tobias.  Berço de toda iniqüidade pernambucana. E, aos poucos o prédio desmorona. Você assiste, aplaude e segue em frente. Persegue o destino que a cidade amarga.

O suor escorre pelas suas costas. A calçada do Edifício União cheira à gordura e urina. É meio-dia. Em cada esquina o que é comida se mistura aos vapores do esgoto e às merdas dos pombos. Que venha a chuva! E o homem já não sabe o que come. Confunde os sentidos e se arvora em deter-se na barafunda do ruído de um auto-falante: é hoje!

É hoje! Desce uma cerveja. O velho tabelião cheira o pescoço da mulata e bebe do seu suor salobro.  Aponta o pênis para o Atlântico e transporta a sua impotência para o mundo. Você acende um cigarro e passa: olha a faca!

A mulata grita. A multidão se afasta. Você permanece com os olhos na faca. Quer ceder ao cio do sangue. Desfigurar todos os rostos. Cortar todas as vergonhas e encerrar qualquer virtude a sete palmos de terra.

Alguém bate a foto do corpo e atravessa correndo o rio para a redação de um jornal: aqui! Agora, você já está longe e diz que essa história não faz sentido. Para onde foi o Recife? Garçom, desce outra! Ele está no Moscouzinho de olhos vidrados nas poesias de parede.  O Recife é saudosista e, no entanto, vai à Igreja comungar com os próprios pecados. O Recife se ausenta da vida. E, para a Boa Vista a cidade já não se anuncia.

E, você? Você, embora despida, permanece estrangeira.


Era uma vez: um parágrafo.

Junho 23, 2008

Era uma vez alguém que não é mais, num lugar que não existe, onde as sombras não pesam e a memória é pouca. Era uma vez uma história que não adianta ser contada, porque toda história não faz sentido para quem escuta e perde sempre o sabor para quem conta. Era uma vez, não mais que uma vez, porque sempre tudo se resume a uma única vez ao nascer, ao espanto e à amnésia; uma vida que não se deixava imitar, e se esvaziava, não se continha e partia para nunca mais num sorriso.