21 de abril: Dia da Inquisição
Pedro de Albuquerque // Escritor
pedrodealbuquerque@gmail.com
http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/04/21/opiniao.asp
Hoje, não é apenas data nacional de Israel. Mas, uma vitória das federações israelitas dispersas por todo o Ocidente. Também uma vitória de todas as entidades democráticas de luta das minorias por inserção e igualdade social contra a opressão dominante e os regimes totalitários. O que faz discernir que qualquer forma de dominação social, seja de direita ou de esquerda, laica, ateia, teocrática ou de economia planificada, é sempre crime hediondo contra a humanidade por coibir a livre consciência. É preciso, pois, manter viva memória dos horrores do Nazismo. Também, do absolutismo sanguinário de Stalin com os seus sessenta milhões de assassinados. Quase dez vezes mais do que Hitler. Dentre os quais milhões de camponeses indefesos a quem os líderes da Revolução Bolchevista juraram defender e promover.
Bem, hoje não é o Dia da Inquisição. Sim do Holocausto: Yom Ha-Shoah, em que se celebra a heroica insurreição do Gueto de Varsóvia em 19 de abril de 1943 contra as forças do III Reich. Dia do resgate da dignidade do povo judeu. Dia de irrestrita e incondicional solidariedade de Israel e a Diáspora. Dia de honrar José Al Buquer: líder da resistência judia na Argélia e coordenador do desembarque das “Tropas Aliadas” de libertação do Norte da África. Ler Howard Sachar em seu: “Farewell España: A Sephardi Remembrance”.
Mas, deveria mesmo ser o Dia da Inquisição em fato e razão do Holocausto ter sido o “grand finale” da satânica Ópera da Inquisição. Um processo instaurado pela Igreja de Roma, a perdurar por setecentos anos, para o aniquilamento da identidade de um povo pela supressão da sua memória. Contando, o terror religioso, inúmeras vítimas emparedadas vivas no Limoeiro (Palácio da Inquisição, hoje, desrespeitosamente, o mesmo prédio do Teatro Nacional de Lisboa ) ou mortas calcinadas em fogueiras no seu pátio externo: atual Praça Dom Pedro I. Isto em sádicos festivais de toda farra e pompa: os Autos de Fé. Com bispos e cardeais ostentando os seus ricos paramentos custeados com os haveres usurpados dos condenados, cujos filhos eram remetidos à Casa dos Órfãos. De lá, as “fêmeas” vendidas para as colônias onde faltavam mulheres brancas e os “machos” mandados como escravos para a Ilha da Madeira. Ou vendidos, em sua maioria, aos potentados do Império Otomano para serem castrados e lá servirem de eunucos ou de amantes passivos. Isto com a receita das suas vendas revertida em favor das ordens religiosas Franciscana e Dominicana: cuja indumentária negra inspirou o figurino das “SS” dos campos alemães de extermínio.
Também, dia de se refletir sobre a pequena Anne Frank, condenada pela covardia. A covardia de todos nós quando silenciamos ante as forças de ideologização a serviço do totalitarismo. Qualquer totalitarismo. Contemporaneamente o do Hamas: flagelo do Povo Palestino em Gaza. Quando da minha última estada em Amsterdã, trinta breves dias, um lapso de eternidade, estive no refúgio de Anne Frank no sótão de um antigo sobrado. Dos muitos sobrados daquela cidade que somente respira o amor, a liberdade, a tolerância, a fraternidade e a igualdade. Isto sem o olor de Paris: de sangue derramado. É que toda revolução é assassina. Amsterdã, a cidade da esperança dos nossos antepassados, sobre a qual a Inquisição, por derradeiro, deitou a sua tenebrosa sombra na versão da cumplicidade tácita da Concordata do Papa Pio XII: o Holocausto.
Dia de se refletir sobre os milhões de vítimas da Inquisição. Vítimas até hoje. Todos nós cristãos-novos de batismo forçado: “judeus-velhos” no dizer do Padre Antônio Vieira. Todos nós brasileiros de mais ou menos acentuada ascendência ibérica e, ou, de mais ou menos acentuada ascendência europeia oriental. Ou dessas duas etnias com os tupynabah e com outros mais das muitas tribos de África miscigenadas: brasilidade!