“Na primavera de 1803, o compositor foi convidado a apresentar em Viena uma sonata inédita para piano e violino. Seu acompanhante neste instrumento foi um jovem mulato, George Bridgetower, filhe de mãe polonesa e pai negro, ex-escravo nas Antilhas, que uma vez na Europa tornara-se valete dos Esterházy, família da aristocracia austro-húngara. O afro-polonês revelou-se desde cedo um prodígio ao violino, tendo sua precocidade comparada à de Mozart.
Para o concerto de Viena, Beethoven entregou a parte do violino poucas horas antes da apresentação. Ainda assim o espetáculo foi um sucesso. Dizem os relatos que, a certa altura do primeiro movimento, após uma passagem dificílima para o piano, Bridgetower teria inesperadamente recriado o mesmo trecho ao violino, obtendo a aprovação entusiástica de Beethoven, que se ergueu do teclado, correu até ele para saudá-lo, e voltou a tempo de continuar tocando. A performance foi tão arrebatadora que, em seguida, Beethoven anunciou que dedicaria a obra a Bridgetower – e escreveu na partitura: Sonata per un mulaticco lunattico.
Mais tarde, quando bebiam juntos, o jovem violinista, que, segundo consta, exercia grande atração junto às mulheres, fez um comentário de cunho particular sobre uma dama conhecida de Beethoven. Enfurecido, este pediu de volta a partitura e rasgou a dedicatória, intitulando-a mais tarde Sonata a Kreutzer, em homenagem a Rodolphe Kreutzer, tido então como o maior nome do violino na Europa. George Bridgetower faleceu em 1860, num asilo para indigentes em Londres, inteiramente esquecido pelo mundo musical – e Kreutzer, por sua vez, ao receber a partitura desta que é uma das sonatas mais célebres da história da música, considerou-a impossível de ser tocada e jamais apresentou a obra em público.
Tolstói conhecia a peça de Beethoven, mas voltou a ouvi-la na primavera de 1888 numa apresentação em sua própria casa. O impacto foi tão grand que o escritor retomou uma idéia que já acalentara antes, de escrever um monólogo dramático conturbado, à maneira de Dostoiévski, para ser levado ao palco pelo ator Andreyev-Burlak, também presente naquela audição.
Trabalhando intensamente neste projeto, e somando a ele o desconforto que experimentava em seu próprio casamento, a leitura de manuais de ginecologia e de conselhos médicos para a gravidez e a higiene feminina, bem como o relatoque ouvira certa vez das angústias de um homem ante a infidelidade de sua esposa, Tolstói condensou, no tempo de uma viagem de trem, uma narrativa de caráter alucinatório, cujos movimentos parecem dialogar com as escalas vertiginosas que piano e violino exploram na obra de Beethoven.
Ainda antes da sua publicação definitiva em 1891, cópias do manuscrito espalharam-se pela Rússia, provocando enorme escânda-lo e respostas variadas, como a de Nikolai Leskov, que escreveu “A propósito de A Sonata a Kreutzer” que se contrapõe à moral severa do autor de Guerra e Paz. Sob qualquer ângulo que seja considerada, entretanto, esta novela de Tolstói constitui uma obra-prima sobre a incompreenão mútua etre homens e mulheres, na qual o andamento inexorável da tragédia não obscurece a lucidez cristalina de sua linguagem” Boris Schnaiderman in Tolstói, A Sonata a Kreutzer.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.