A Sonata a Kreutzer.

Maio 21, 2009

“Na primavera de 1803, o compositor foi convidado a apresentar em Viena uma sonata inédita para piano e violino. Seu acompanhante neste instrumento foi um jovem mulato, George Bridgetower, filhe de mãe polonesa e pai negro, ex-escravo nas Antilhas, que uma vez na Europa tornara-se valete dos Esterházy, família da aristocracia austro-húngara. O afro-polonês revelou-se desde cedo um prodígio ao violino, tendo sua precocidade comparada à de Mozart. 

Para o concerto de Viena, Beethoven entregou a parte do violino poucas horas antes da apresentação. Ainda assim o espetáculo foi um sucesso. Dizem os relatos que, a certa altura do primeiro movimento, após uma passagem dificílima para o piano, Bridgetower teria inesperadamente recriado o mesmo trecho ao violino, obtendo a aprovação entusiástica de Beethoven, que se ergueu do teclado, correu até ele para saudá-lo, e voltou a tempo de continuar tocando. A performance foi tão arrebatadora que, em seguida, Beethoven anunciou que dedicaria a obra a Bridgetower – e escreveu na partitura: Sonata per un mulaticco lunattico.  

Mais tarde, quando bebiam juntos, o jovem violinista, que, segundo consta, exercia grande atração junto às mulheres, fez um comentário de cunho particular sobre uma dama conhecida de Beethoven. Enfurecido, este pediu de volta a partitura e rasgou a dedicatória, intitulando-a mais tarde Sonata a Kreutzer, em homenagem a Rodolphe Kreutzer, tido então como o maior nome do violino na Europa. George Bridgetower faleceu em 1860, num asilo para indigentes em Londres, inteiramente esquecido pelo mundo musical – e Kreutzer, por sua vez, ao receber a partitura desta que é uma das sonatas mais célebres da história da música, considerou-a impossível de ser tocada e jamais apresentou a obra em público.

Tolstói conhecia a peça de Beethoven, mas voltou a ouvi-la na primavera de 1888 numa apresentação em sua própria casa. O impacto foi tão grand que o escritor retomou uma idéia que já acalentara antes, de escrever um monólogo dramático conturbado, à maneira de Dostoiévski, para ser levado ao palco pelo ator Andreyev-Burlak, também presente naquela audição. 

Trabalhando intensamente neste projeto, e somando a ele o desconforto que experimentava em seu próprio casamento, a leitura de manuais de ginecologia e de conselhos médicos para a gravidez e a higiene feminina, bem como o relatoque ouvira certa vez das angústias de um homem ante a infidelidade de sua esposa, Tolstói condensou, no tempo de uma viagem de trem, uma narrativa de caráter alucinatório, cujos movimentos parecem dialogar com as escalas vertiginosas que piano e violino exploram na obra de Beethoven.

Ainda antes da sua publicação definitiva em 1891, cópias do manuscrito espalharam-se pela Rússia, provocando enorme escânda-lo e respostas variadas, como a de Nikolai Leskov, que escreveu “A propósito de A Sonata a Kreutzer” que se contrapõe à moral severa do autor de Guerra e Paz. Sob qualquer ângulo que seja considerada, entretanto, esta novela de Tolstói constitui uma obra-prima sobre a incompreenão mútua etre homens e mulheres, na qual o andamento inexorável da tragédia não obscurece a lucidez cristalina de sua linguagem” Boris Schnaiderman in Tolstói, A Sonata a Kreutzer.  


Falência multipla das nossas capacidades morais.

Abril 30, 2009

Ser com o outro custa muito e acaba nos fazendo sentir permanentemente frustrados. É como se a linguagem não fosse suficiente para expressar a verdadeira dimensão daquilo que sentimos no instante em que aquele outro se torna essencial para as nossas vidas, ao mesmo tempo em que ele repele a espontaneidade de algumas atitudes nossas, provocando uma agoniante sensação de cansaço.


Boa Vista: o Recife é aqui.

Abril 22, 2009

O sol queima a pele dos negros e você segue intocada entre as sombras e as cinzas caminhando pelas calçadas. O Recife não está ali: ele foge em passos embriagados até o seu fim, num salto para dentro do ventre podre de uma cadela sem plumas: uma desconhecida mendiga de pernas abertas que reflete o imponente casario abandonado da Rua da Aurora.

O Recife foge num mergulho e vence a inércia histórica da Faculdade de Direito: o mausoléu de Tobias.  Berço de toda iniqüidade pernambucana. E, aos poucos o prédio desmorona. Você assiste, aplaude e segue em frente. Persegue o destino que a cidade amarga.

O suor escorre pelas suas costas. A calçada do Edifício União cheira à gordura e urina. É meio-dia. Em cada esquina o que é comida se mistura aos vapores do esgoto e às merdas dos pombos. Que venha a chuva! E o homem já não sabe o que come. Confunde os sentidos e se arvora em deter-se na barafunda do ruído de um auto-falante: é hoje!

É hoje! Desce uma cerveja. O velho tabelião cheira o pescoço da mulata e bebe do seu suor salobro.  Aponta o pênis para o Atlântico e transporta a sua impotência para o mundo. Você acende um cigarro e passa: olha a faca!

A mulata grita. A multidão se afasta. Você permanece com os olhos na faca. Quer ceder ao cio do sangue. Desfigurar todos os rostos. Cortar todas as vergonhas e encerrar qualquer virtude a sete palmos de terra.

Alguém bate a foto do corpo e atravessa correndo o rio para a redação de um jornal: aqui! Agora, você já está longe e diz que essa história não faz sentido. Para onde foi o Recife? Garçom, desce outra! Ele está no Moscouzinho de olhos vidrados nas poesias de parede.  O Recife é saudosista e, no entanto, vai à Igreja comungar com os próprios pecados. O Recife se ausenta da vida. E, para a Boa Vista a cidade já não se anuncia.

E, você? Você, embora despida, permanece estrangeira.


whatever happens.

Abril 14, 2009

We all have a good reason to die.


Era uma vez: um parágrafo.

Junho 23, 2008

Era uma vez alguém que não é mais, num lugar que não existe, onde as sombras não pesam e a memória é pouca. Era uma vez uma história que não adianta ser contada, porque toda história não faz sentido para quem escuta e perde sempre o sabor para quem conta. Era uma vez, não mais que uma vez, porque sempre tudo se resume a uma única vez ao nascer, ao espanto e à amnésia; uma vida que não se deixava imitar, e se esvaziava, não se continha e partia para nunca mais num sorriso.


Poema.

Junho 8, 2008

Juliana Albuquerque, 2005.

Pinga mais uma gota

No copo.

Escorre, lentamente o sangue:

Estamos todos mortos.

E não existe tempo suficiente,

Nada mais transcende.

É o absurdo,

São os verbos,

Os corpos.

Outro instante das nossas vidas,

A música cala,

E muda

Pinga.


Encontro e espanto: criação.

Junho 5, 2008

I

(texto publicado no meu fotolog em 29 de maio de 2008 )

Diz-se que a nossa primeira atitude diante da vida deve ser a do espanto: quando conseguimos apreender todo lado trágico da existência. Mas, o espanto ocorre no encontro do homem com o outro: o mundo. O outro que é tão pleno de certeza quanto ele, e que por isso segue o seu caminho, a princípio, em paralelo.

Mas quando as histórias se cruzam, interrompe-se a apneia: respira-se, enfim. Como se num choque subterrâneo, o eu e o outro acordassem de um delírio e procurassem por ar. Cria-se, enfim, algo novo: consciências além do trágico, consciências que se reconhecem, braços que se dão e se equivalem. Vê-se, desta forma, no amor o gérmen da experiência ética.


Bloco de Notas.

Março 26, 2008

Assim, o dia se desfez. Renato, cansado, deixou o seu apartamento e foi buscar o mundo numa mesa de bar. A noite era clara e, todas as luzes da cidade cintilavam, através da garrafa, naquela mesa em que guardava a sua alma vazia num copo cheio.

A mesa de tantos outros. A mesa gasta, tal uma puta era preta e velava em sí uma desgraça: Renato.

Era o uivar do vento e mais nenhum outro sentimento, uma escolha sem maiores possibilidades.


Outubro.

Março 26, 2008

PARTE I

 

 

Madrugada em Porto Alegre. Aeroporto Salgado Filho. O trem de aterragem tocou a pista molhada. “Senhoras e senhores, informamos a chegada ao Aeroporto Salgado Filho, pedimos para que permaneçam sentados até a parada da aeronave. Bem-vindos à Porto Alegre. A meterologia aponta tempo chuvoso, a temperatura não deverá ultrapassar os 14 graus. Ladies and Gentlemen…”

“deep within the abbatoir
of your entrails your insides
lost in you forever far from home”

Os dedos de Alice tocaram os bolsos da jaqueta. “Moça, preciso de um copo d’água.” Sem mesmo tirar a caixa de remédios do bolso esquerdo, ela destacou um comprimido da cartela. “Aqui está, senhora.” Rompeu o lacre do copo plástico. Prendeu o comprimido entre os lábios. Olhou pela janela. O céu estava cinza, quase negro: maravilha. E logo depois uma corrente de água fresca carregou para dentro do seu corpo a calma que lhe faltava para ser feliz. “Obrigada.” Desligou o mp3 player, juntou o livro e as canetas que estavam no seu colo e finalmente decidiu desprender-se do assento. “Dentro de alguns minutos: um expresso e alguns cigarros.”

Queria apagar da memória as cenas da noite anterior. A mala ainda estava aberta sobre a sua cama. Quando o telefone tocou ainda existia muito que fazer, mas ele disse: tinha pressa. Usou a velha desculpa do livro emprestado e minutos depois buzinou à sua porta. Foram comer uma pizza. No caminho para a lanchonete: silêncio. A chuva fina enchia o pára-brisa de gotas d’água e através delas as luzes da cidade pareciam pedras preciosas. Uma música estourou na sua cabeça, como um tiro a queima roupa, ou um eco distante, uma voz num pesadelo: “se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar, e cobria com pedrinhas de brilhante só para ver o meu amor passar.”

Mas a noite, e a chuva que espelhava as luzes tênues dos postes assemelhava-se a uma selva escura por onde se havia perdido o caminho direito da sua vida. Alice tinha plena certeza de que dentro daquele carro e diante dos olhos que fitavam o seu rosto encontraria apenas a solidão. Era necessário deixar para trás toda esperança: qualquer tipo de crença era uma mentira.

Sinal amarelo ao fim da avenida deserta. A visão de um estacionamento anunciou uma dúvida: Eduardo não se parecia com o garoto do retrato. Mas, existiria mesmo o garoto do retrato? E o seu beijo sem vida tocou os lábios de Alice como uma navalha. Ela se deixava subjugar pela dor como se aquela presença fosse capaz de deletar os seus desejos. Era tarde e não poderia dar para trás. As mãos de Eduardo apertavam a sua cintura e esticavam a sua carne como se abrissem as janelas que davam para dentro da sua alma e cruzassem as sete portas de sua morada: para matar e rever em cada quarto cada membro da sua família.

Alice se deixava sufocar pelo seu abraço e pelo horror. Enquanto isso na sua casa a mala permanecia aberta sobre a cama. “Admita que sentiu a minha falta.” e novamente fechou os olhos escutando o barulho da chuva sobre o capu do carro. “Não.” Dentro de algumas horas entraria num avião e talvez diante dos seus olhos outra pessoa, outro Eduardo permanecesse convicto e orgulhoso do sofrimento que parecia lhe causar. Ele riu. Achava graça no seu excesso de dignidade. “Sempre soube que a sua gente era incapaz de amar.”

Mas, toda a sua gente estava morta. Enterrada sobre a sua lascívia. E, pela primeira vez Alice sentiu-se covarde. Lembrou-se do seu pai debruçado sobre um quadro negro lhe ensinando as primeiras palavras dos seus avós. E por um segundo pensou em destruir o sorriso macabro que se aproximava novamente dos seus lábios. “Já não quero pizza. Vamos embora”. Ela mesma estava morta. E já não se fazia possível acreditar que qualquer coisa tivesse algum sentido.

Quando voltou para casa terminou de arrumar a mala. Contemplou o vazio no seu quarda-roupas e pensou consigo mesma que aquela viagem se tratava de um exílio. Sete dias em total solidão entre os trabalhos que haveria de apresentar e decisões que precisaria tomar. Acendeu um cigarro e tragou profundamente a fumaça azeda do Malboro, quase um purgante para o beijo que ansiava afastar dos seus lábios. No canto esquerdo do quarto percebeu um pacote de xerox, a mesma história estaria para se repetir. Mais uma vez o olhar e o estrago. Talvez a vida fosse isso: um salto constante entre hedonismo e estoicismo. E não foi nisso que desde pequena lhe fizeram acreditar.

Mas às cinco da manhã no Aeroporto Salgado Filho o frio era uma constante. Pousou a mala num carrinho e procurou o primeiro Café. Ordenou um expresso e dois croissants. E, enquanto comia pensou novamente no menino do retrato e no sorriso que lhe havia definhado a consciência. Pediu para a garçonete papel e caneta. Algumas vezes era notória a sua capacidade de perder o senso: a ponta da caneta cruzou os extremos da folha e ela sabia que lá existia mais do que um conjunto de pontos. Durante alguns instantes permaneceu olhando a linha azul sobre a folha branca. A mesma linha que corta é a que separa, pensou e os seus dedos procuraram escapar o destino de todo esquecimento. Diante dos seus olhos a reta fazia o contorno do horizonte. Uma imensidão branca se pronunciou sobre a mesa, como numa manhã glacial reduzindo cada objeto a brancura do gelo. Alice refez mais uma vez com os dedos sujos de açucar a trajetória da reta mal desenhada sobre o papel vagabundo. Papel de reflorestamento. Estava cansada e o remédio fazia efeito. Porém desejava pixel por pixel daquele sorriso preso numa foto retida numa tela de computador. Deixou escapar um suspiro. Atirou o papel no lixo. Pagou a conta. O seus dedos tornaram a visitar os bolsos da jaqueta. Era hora de voltar à realidade. Apertar o play e talvez escutando música esperar serem lançados os dados do acaso.


‘…two lives may be saved.’

Janeiro 31, 2008

Alguma vez você já sentiu como se o seu laço com o mundo estivesse prestes a se desfazer? Faz um ano um sentimento muito estranho tomou conta de mim. Como se estivesse rodeada pelo mais absoluto silêncio não percebo a mágica que as pessoas podem proporcionar umas as outras com os seus movimentos e as suas palavras. A linguagem já não parece ser algo capaz de me chamar à realidade. Existe um abismo sem fundo entre mim e os outros. Esses outros que não são outros de mim mesma, mas permanecem afixados numa paisagem como os bonecos desprovidos de volume numa colagem onde se misturam cores e cenários pobres de sentido. Eis o que me aborrece: nada mais faz sentido. E, no entanto quando afirmo tal coisa sinto medo. Afinal, se tudo não passa de um enorme engano o que posso dizer de mim mesma? Se a linguagem já não é suficiente, e falha no mais simples gesto das minhas mãos, ou nas palavras que articulo em meus lábios. O que sou eu diante deste mundo que não me pertence? Ou que me pertence, mas do qual me subtraio. E, por que me subtraio?

O primeiro passo para alcançar a resposta para todas essas questões está no meu engajamento com o próprio vazio que sinto. É unicamente através dele e de sua manifestação sem pré-questionamentos que posso ensaiar me situar diante de mim, e diante do outro que permanece desconhecido. Neste vazio, na medida em que me ausento de mim, devo encarar como possibilidade o que sou diante do outro. Talvez isto funcione como uma experiência de quase-morte onde as pessoas dizem estar postas acima dos seus próprios corpos enquanto observam o desdobramento do que lhes será feito. Então, flutuo neste vazio. E se o outro me é apresentado como carente de dimensões, também eu estou como ele carente de dimensões: não tenho peso. Sou mais um boneco afixado sobre uma colagem. Porque essa colagem é a nossa realidade última. E, até que saiba romper esse destino ou ultrapassar o abismo que me separa do mundo preciso encontrar uma maneira de me fazer outro, e isto só é possível na medida em que encontre uma maneira de me comunicar. Para isso não posso estar apenas ausente de mim, afinal não é suficiente alienar-se o que resultaria apenas na mesma (falta de) situação que vivencio no presente, mas é necessário que em me ausentando de mim mesma sinta fome de estar novamente comigo. É neste ponto que não posso me deixar subtrair, mas apenas ocultar. Pois, se tenho fome de mim e vontade de estar comigo, este mundo é obra do que faço para alcançar novamente a mim mesma através do outro, para quem sou o outro. E porque ele também sente fome de si, este mundo é nosso e apenas unidos pela linguagem que nos permanece ainda desconhecida seremos capazes nos lançarmos ao que somos. E o que somos exige volume, pois o desvelar de nós mesmos demonstra cada aspecto do que já deixamos de ser, e mesmo assim permanecemos. Porque o que somos é o que jamais conseguiremos ser, senão em devir. Assim, do volume das nossas próprias dimensões nasce o peso que apenas aquele para quem ainda não sou consegue sentir, mas que logo, mediante a força que aplico contra mim mesma para me soltar do cenário em que me encerro (o silêncio) sentirei com toda violência. Este peso sobre o qual repousa o meu corpo é a prova da minha liberdade.