Texto que escrevi e que postei no Recife não é Manhattan (o meu antigo blog) em 03 de Janeiro de 2007 :
Um rabino cabalista explica os prejuízos causados pela energia negativa, e eu luto contra o moralismo disfarçado de ética. Procuro me situar no universo em que estou inserida e, finalmente, encontro a resposta para todos os meus problemas:
Recife não é Manhattan.
Manhattan não é Paris.
Eu não faço parte deste mundo.
Numa cidade em que as relações de alteridade são postas no futebol, entre um e outro jogo, as pessoas seguem instintos primitivos. O primeiro deles: a sobrevivência. Todos são levados a agir como caranguejos presos em um caçoa*. Mas, o pior de todos os instintos é aquele da perpetuação da espécie.
O pernambucano tem necessidade de afirmação através da sua prole. Ela é a grande motivação da sua vida e simboliza todas as suas frustrações. A relação entre pais e filhos é completamente sem futuro. Nela não existe encontro nem desencontro, apenas uma reprodução dos comportamentos adquiridos. Padrões perpetuados pela ‘boa convivência’ citadina.
Existe o boi e o touro. Nada além de figurações masculinas de força em que a potência foi posta a prova faz tempo. A mulher (vaca, pata ou galinha) trata-se apenas de uma contingência, ou, se preferir, de um mal necessário.
Este é um mundo para lá de Omã. Camus, em toda sua literatura do absurdo, não seria capaz de recriar tão pavoroso cenário. Aqui, além das casas serem voltadas contra o mar, as mentes ensimesmadas atiram-se na total falta de responsabilidade: no que somos faltosos nos socorre a divina providência.
Existir não é prerrogativa do pernambucano. Este se contenta com o uivar do vento em seu juízo. De bar em bar preenche os seus dias. Busca instruir os machos mais novos a buscar o seu mesmo caminho: o mais fácil. Ninguém precisa pensar.
Enquanto isso, em casa, as figuras femininas dividem-se. Seus padrões são aqueles para o acasalamento: cortesia, vulgaridade e amabilidade. A palavra de ordem: sim, eu aceito. Mãe e filha instrumentalizadas pelo mesmo manual. Jamais serão amigas, afinal a humanidade é constantemente negada pela supressão da existência. Filha e esposa, em verdade, completam a mesma figura no imaginário de culpa masculino. É o incesto que assume a covardia em forma de platonismo.
Neste quadro funesto as relações domésticas desembocam no mundo profissional para derramar toda a sua falta de objetividade e propósito. Os projetos e as metas não fazem sentido algum. O que irá importar será a sobrevivência. Sempre o instinto e a perseguição selvagem àquele que se demonstra mais humano.
Vou-me pegar ao rabino. De todos, o menos santo.
Agosto 31, 2009 às 3:28 pm |
meio pesado… com àquela ironia distanciada que o velho Hegel detestava mas que garantiu a Machado de Assis um espaço privilegiado na cultura brasileira. De boa leitura, mas pesado.
Ainda te devo um email… – minha promessa já tá virando um mito.
tenho que te contar sobre o encontro na usp que apresentei trabalho.
vou indo nessa.
beijos.
Setembro 1, 2009 às 1:13 am |
Julie, seu texto está o primor de costume, mas confesso que senti muita revolta nas suas palavras. Como diriam alguns colegas de trabalho: tire esse ódio do seu coração! Hehehehe.
Não deixa de ser verdade o que está dito, mas são palavras muito cruas e que mostram apenas o lado ruim das coisas. Meu jeito Pollyanna não me permite ver dessa forma. =P