
“Um dos marcos na discografia de Maria Bethânia, este Drama – que significa “ação” em grego e designa logo de cara sua verve teatral – já começava com um Ponto contra o autoristarismo da ditadura: ’sou eu que me deito tarde/Sou eu que levanto cedo/ Sou eu que realço tudo/ Sou eu que não tenho medo.’ A mensagem era confirmada em outras faixas, como Negror dos tempos, que produziu o álbum da irmã, tão logo chegou do exílio forçado em 72, presenteando-a ainda com uma de suas primeiras canções escritas no feminino: Esse cara. Esta canção logo se tornaria a faixa de maior sucesso deste LP ao lado de Estácio, Holly Estácio, pérola de Luiz Melodia que ele teve a felicidade de lançar um anos antes de ele gravar o seu primeiro LP.
Seu nome enigmático - Drama/Anjo Exterminado - tem algumas curiosidades. Se o subtítulo foi obviamente colocado para saudar a canção de Macalé e Waly Salomão, Drama não era apenas o nome de uma canção de Caetano. “Drama significava teatro em Santo Amaro. Na minha terra não se falava a palavra teatro, se dizia: ‘eu vi um drama, vai ter um drama tal dia.’ “, explica hoje a cantora, dizendo ainda que há muito no mano Caetano nesse disco, por ter sido por ele, inclusive em sua conceituação.
Este álbum falava ainda sobre a força do ato de cantar na faixa-título (“Eu minto, mas a minha voz não mente (…) E, ao fim de cada ato, limpo num pano de prato as mãos sujas do sangue das canções”), mas uma de Caetano, que ainda compôs com Gil outra maravilha para este disco: Iansã, indo de encontro à forte religiosidade da cantora, devota assumida do candomblé. Do passado Bethânia garimpou o fado Maldição, do repertório de Amália Rodrigues, o samba Volta por cima, lançado por Noite Lustrada em 62 e o belo samba-canção Bom-dia, sucesso de Linda Batista, em 42. Finalmente, ainda deu uma de letrista em Trampolim, com música do mano. Até hoje, além desta, ela só lançaria mais cinco canções com a sua assinatura: Luz da Noite (presente no show Drama 3º ato, de 73), Pássaro Proibido (faixa-título do seu LP de 76) e Caras & Bocas (faixa título do LP de Gal Costa, de 77) em parceria com Caetano, e mais Reino antigo (do show que fez com Caetano, em 78) e Cana Caiana (que fez em homenagem à amiga Zezé Motta, em 79) – ambas com música da violonista Rosinha de Valença.
Drama também foi lançado na Argentina (com outra capa, escura, com ela no palco e o título escrito em rosa) pelo selo Trova, o mesmo que registrou em disco seu encontro com Toquinho & Vinícius no ano anterior, quando realizaram uma série de apresentações em Mar del Plata, resultando no LP Vinícius + Bethânia + Toquinho En la Fusa (Mar del Plata) – que trouxe o nome da casa de shows e da cidade balneário no título por questões comerciais, pois o LP, em verdade, foi gravado em dois dias num estúdio de Buenos Aires, numa rápida escapada do trio, durante a temporada. Aliás, era a primeira viagem da cantora à Argentina.
O ano de 1972 foi bem agitado para Bethânia. Além de ter reecontrado o irmão, Caetano, depois de um longo tempo exilado, ela deu asas à sua carreira internacional. Em janeiro, esteve na Europa, representando o Brasil no Festival de MIDEM, em Cannes, e cantando também em outras cidades da França e da Itália. No final do ano, seguiu em tournée de 38 concertos com o Terra Trio, num show de expoentes da MPB, onde também havia sets com Paulinho da Viola e Sebastião Tapajós, entre outros, começando em Frankfurt e terminando em Paris. Essa excursão deixou para a posteridade um disco intitulado Não tem solução (Caymmi) e um pot-pourri nordestino. Também apresentou (por um curto período) o programa MEC-Música, na TV Globo, mas logo viu que este não seria o seu veículo favorito e demitiu-se da empreitada. Em junho, também estreou o filme Quando o carnaval chegar, onde atuou ao lado do ator Hugo Carvana e dos colegas Chico Buarque e Nara Leão, formando com ambos um trio de cantores mambembes que protagonizavam a trama. A trilha do filme saiu em disco naquele mesmo ano pela Philips, onde a cantora lançava duas pérolas buarquianas de sua discografia: Baioque e Bom Conselho.” Rodrigo Faour (Maio/2006)
Escrito por Juliana de Albuquerque K. 
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
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