Falência multipla das nossas capacidades morais.

Ser com o outro custa muito e acaba nos fazendo sentir permanentemente frustrados. É como se a linguagem não fosse suficiente para expressar a verdadeira dimensão daquilo que sentimos no instante em que aquele outro se torna essencial para as nossas vidas, ao mesmo tempo em que ele repele a espontaneidade de algumas atitudes nossas, provocando uma agoniante sensação de cansaço.

5 Respostas para “Falência multipla das nossas capacidades morais.”

  1. Joana Rossi Barbosa Disse:

    A expectativa de ser o outro é para mim a negação de querer se enfrentar, hoje o outro é o espelho para muitos, e nesse moimento não existe saída para nõ se deparar com a frustação. A real busca e o foco prcisam ser EU, trabalhando o eu, desenvolvo a percepção, que é a capacidade de identificação apartir da referencia minha, do meu ser. A busca do eu no outro e como você comenta o equivocoda busca de um sentido existencial.
    Pode parecer ser superficial e obvio para alguns o meu cometário mas a pratica e a não fuga da realidade exige um despendimento dos medos e o medo cega, leva a negação física, espiritual e psicológica e vivemos atualmente no mundo dos esteriótipos, do devr ser e não do querer, longe da introspcção que é o caminho para o amadurecimento.

    • Juliana de Albuquerque K. Disse:

      Olá, Joana!

      Muito obrigada pelo seu comentário. Mas, acredito que lhe passou desapercebido o fato de que eu não usei o termo “ser o outro”, porém, usei o termo “ser com o outro” o que implica em duas situações completamente distintas (muito embora facilmente confundidas, e até mesmo relacionadas).

      Se usarmos uma terminologia heideggeriana veremos que o homem é Dasein e Mitsein (ser-aí e ser-com, respectivamente). E, visto que o homem é fenômeno, ele também é percebido por outra consciência além da sua própria. Ora, ele apenas pode se enunciar na medida em que interage com o outro através da linguagem e de outras formas de manifestações forjadas por ele para afirmar a si próprio. Mas, no que se enuncia já não é. Passa a ser esvaziamento de ser, para depois recuperar-se em outro momento da sua mostração permanente para o outro, no meio. Mostração essa que é também auto-reflexão daquele sujeito que se mostra, porque este sujeito também é fenômeno para si mesmo.

      Não se trata da busca do eu no outro. E, sim da consciência que a construção da nossa individualidade passa pelo fato de que somos uma subjetividade entre muitas outras. Assim, a auto-afirmação é sempre um jogo bastante arriscado visto que nos leva a cometer enganos solipsistas. Mas, a auto-afirmação mediada pelo nosso contato com o outro, e com o meio, nos dá uma maior segurança daquilo que somos porque naquilo que percebemos não ser, enfim afirmamos o nosso projeto enquanto singularidade radical enquanto existência autêntica.

      Ora, ser o outro, como você equivocamente colocou não compreende esse movimento. Ser o outro é abandonar-se no meio e se tornar pura facticidade. Deste tipo de conduta não brota qualquer espécie de frustração. Porque, posto que o homem se deixou abandonar ao plano factual, já não tem necessidade de se afirmar. E, toda frustração brota da nossa constante tentativa de efetivar o nosso projeto singular. Logo, a frustração é típica de quem está engajado na tentativa de se constituir como existência autêntica. Afinal, é típico de quem se expõe e quer se fazer reconhecer frustrar-se com as barreiras impostas pelo outro, muito embora este outro seja elemento essencial na sua reflexão sobre si mesmo.

      A existência é algo singular. Mas, enquanto singular cada um dos existentes dividem entre os outros a mesma condição. Sendo inevitável o vínculo entre todos. Mesmo para que haja amadurecimento através da introspecção daquele que é singular.

      Espero que o comentário ajude.

  2. Laura Freire Disse:

    Não, a linguagem não é mesmo suficiente. É por isso que a atitude é importante, muitas vezes é a única coisa que importa mesmo…

    Mas se é a atitude que também está sendo repelida, provavelmente é necessário uma reavaliação das situações: talvez as palavras estejam vindo em lugar das atitudes e estas, por sua vez, vindo no momento em que aquelas já seriam suficientes…

    Como resolver isto? Fazendo ambas as coisas em concomitância: sentar e conversar. O cansaço traz desânimo e eles podem provocar palavras e atitudes que sinceramente não queremos e o arrependimento posterior nem sempre consegue ser eficaz. E então acabaremos por perder não só palavras e atitudes boas, mas uma pessoa inteirinha…

    Sentar e conversar faz a gente aprender a como ser com o outro. Afinal, a raça humana é tão especial dentre os seres vivos que possui uma diferenciação significativa dentro dela mesma. E não é de cor, credo, sexo, religião etc. É de “ser” mesmo, é de pensamento, é de experiências, de conceitos, de idéias. Daí a dificuldade de qualquer tipo de relacionamento humano, mesmo quando se trata de um simples atendimento, numa empresa, para prestar esclarecimentos (palavra da experiência).

    Aprender a ser com o outro faz a gente mudar um pouco, ceder um “cadinho”, mas não pode provocar perdas… salvo de alguns de nossos defeitos (ah, infelizmente – ou felizmente – não dá pra se livrar de todos…). É preciso que saibamos crescer juntos, ainda que isso nos custe alguns pedaços de nós mesmos (pedaços do nosso orgulho, de alguns conceitos pré-formulados). Se o outro vale a pena, que passemos por ela…

    Isso fez-me lembrar de uma história que li na adolescência… Vou tentar contar como me lembro…
    Um rapaz estava na praça, exibindo a todos o seu coração como um artigo de rara beleza: todo inteirinho, todo da mesma cor, lindo, sem um arranhão sequer. Um coração perfeito.
    Na multidão, porém, um senhor de certa idade disse-lhe que o coração dele (do senhor) era ainda mais bonito. E exibiu-o: cheio de remendos, pedaços diferentes e alguns buracos bem visíveis (outros nem tanto).
    O rapaz riu, incrédulo.Como um coração todo “estrupiado” daquele poderia ser melhor que o seu, que estava praticamente intacto?
    O velho sorriu e disse-lhe que o seu coração tinha preciosidades que o rapaz não possuía. Se tinha pedaços diferentes, é que outros corações deixaram nele aqueles pedaços e ele precisava guardá-los, como também aqueles outros corações levaram um pedaço do seu. Se tinha remendos, é que algumas vezes uma força partira o coração e foi preciso reconstruí-lo, pois a vida precisava seguir o seu curso. Se tinha buracos, é que alguns corações não sabiam trocar pedaços ou não puderam trocar e ele acabou perdendo uma parte do seu sem um outro pedaço para substituir. Mas aquele coração, de aparência menos agradável que o do jovem orgulhoso, aquele coração havia VIVIDO!

    Mas claro… como qlauqre músculo humano, ele cansa… ainda bem que existem massagens para reanimá-lo, né? :)

  3. Mayara Disse:

    eis uma das maiores e mais insolúveis desarmonias da existência – humano, demasiado humano.

  4. Marcelino Disse:

    Nobre,

    Quando te digo para encaminhar-se para a psicanálise, você refuta…
    Certamente seria uma das boas!
    Há quem diga que a pós-modernidade está justamente nisso. O fim da ilusão de que o conhecimento positivo nos faria feliz. A percepção que o inconformismo, a falta, o desejo, o cansaço são a tônica.
    Isso já cantava o velho mestre Freud.

    Lembra dos “porcos-espinhos” no inverno?
    E da linguagem como agente de formação do “eu”?
    Angustiantemente humano…

    M.

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