Boa Vista: o Recife é aqui.

O sol queima a pele dos negros e você segue intocada entre as sombras e as cinzas caminhando pelas calçadas. O Recife não está ali: ele foge em passos embriagados até o seu fim, num salto para dentro do ventre podre de uma cadela sem plumas: uma desconhecida mendiga de pernas abertas que reflete o imponente casario abandonado da Rua da Aurora.

O Recife foge num mergulho e vence a inércia histórica da Faculdade de Direito: o mausoléu de Tobias.  Berço de toda iniqüidade pernambucana. E, aos poucos o prédio desmorona. Você assiste, aplaude e segue em frente. Persegue o destino que a cidade amarga.

O suor escorre pelas suas costas. A calçada do Edifício União cheira à gordura e urina. É meio-dia. Em cada esquina o que é comida se mistura aos vapores do esgoto e às merdas dos pombos. Que venha a chuva! E o homem já não sabe o que come. Confunde os sentidos e se arvora em deter-se na barafunda do ruído de um auto-falante: é hoje!

É hoje! Desce uma cerveja. O velho tabelião cheira o pescoço da mulata e bebe do seu suor salobro.  Aponta o pênis para o Atlântico e transporta a sua impotência para o mundo. Você acende um cigarro e passa: olha a faca!

A mulata grita. A multidão se afasta. Você permanece com os olhos na faca. Quer ceder ao cio do sangue. Desfigurar todos os rostos. Cortar todas as vergonhas e encerrar qualquer virtude a sete palmos de terra.

Alguém bate a foto do corpo e atravessa correndo o rio para a redação de um jornal: aqui! Agora, você já está longe e diz que essa história não faz sentido. Para onde foi o Recife? Garçom, desce outra! Ele está no Moscouzinho de olhos vidrados nas poesias de parede.  O Recife é saudosista e, no entanto, vai à Igreja comungar com os próprios pecados. O Recife se ausenta da vida. E, para a Boa Vista a cidade já não se anuncia.

E, você? Você, embora despida, permanece estrangeira.


Uma resposta para “Boa Vista: o Recife é aqui.”

  1. Elvis "Wolvie" Disse:

    Maravilhosa crônica, Julie. Já pensou em enviá-la a um jornal? Parece-me o tipo de texto que eles ocasionalmente publicam.

    Falando em crônicas, jornais, o post anterior, etc., tem um cronista (além de outras inúmeras habilidades) paraibano radicado no Rio de Janeiro que escreve para um jornal da Paraíba, e anda publicando seus textos diários em um blog. São fabulosos. Recomendo uma olhadela:
    http://mundofantasmo.blogspot.com/

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