Era uma vez: um parágrafo.

Junho 23, 2008

Era uma vez alguém que não é mais, num lugar que não existe, onde as sombras não pesam e a memória é pouca. Era uma vez uma história que não adianta ser contada, porque toda história não faz sentido para quem escuta e perde sempre o sabor para quem conta. Era uma vez, não mais que uma vez, porque sempre tudo se resume a uma única vez ao nascer, ao espanto e à amnésia; uma vida que não se deixava imitar, e se esvaziava, não se continha e partia para nunca mais num sorriso.


Derrida.

Junho 9, 2008


Kafka.

Junho 9, 2008

“Oddly enough you have some sort of notion of what I mean. For instance, a short time ago you said to me: “I have always been fond of you, even though outwardly I didn’t act toward you as other fathers generally do, and this precisely because I can’t pretend as other people can.” Now, Father, on the whole I have never doubted your goodness toward me, but this remark I consider wrong. You can’t pretend, that is true, but merely for that reason to maintain that other fathers pretend is either mere opinionated nests, and as such beyond discussion, or on the other hand—and this in my view is what it really is—a veiled expression of the fact that something is wrong in our relationship and that you have played your part in causing it to be so, but without its being your fault. If you really mean that, then we are in agreement.” Kafka, Brief an den Vater, 1919.


Poema.

Junho 8, 2008

Juliana Albuquerque, 2005.

Pinga mais uma gota

No copo.

Escorre, lentamente o sangue:

Estamos todos mortos.

E não existe tempo suficiente,

Nada mais transcende.

É o absurdo,

São os verbos,

Os corpos.

Outro instante das nossas vidas,

A música cala,

E muda

Pinga.


Espanto.

Junho 5, 2008

( Originalmente escrito entre outubro e novembro de 2007, numa folha de papel, foi usado em um dos meus contos mais recentes, porém sem captar metade das coisas que gostaria de ter dito. Agora, após ter feito uma pré-amostra do texto no meu flog deixo aqui com vocês a primeira versão do texto que aparece em Outubro)

Era possível dizer que estava perdendo o senso. Mas, quando a ponta do lápis cruzou os extremos da folha de papel ela sabia que naquela reta existia mais do que um conjunto de pontos. Durante poucos instantes permaneceu olhando a linha cor de grafite sobre a folha branca. Foi tempo suficiente para um suspiro. Mesmo que os seus dedos seguissem o curso dos seus sonhos existia a margem da folha, e para além dela o silêncio. Os seus dedos não iriam a lugar algum e a reta mostrou-se afiada como uma navalha.

Diante dos seus olhos o papel dividiu-se em dois hemisférios. A mesma linha que corta é a que separa, e os seus dedos doloridos procuravam escapar ao destino de todo esquecimento. Diante dos seus olhos. A reta fazia o contorno do horizonte, e uma imensidão branca se pronunciou sobre a mesa, como numa manhã glacial reduzindo cada objeto a brancura do gelo. Refez a trajetória da reta mal desenhada sobre o papel vagabundo, papel de reflorestamento. Estava cansada do politicamente correto. Dos vícios do conforto, e carregava na ponta dos dedos as cinzas do cigarro. A sua impressão digital. A morte: a cinza da sua impressão.

Destroços de um passado de brinquedo. Ruínas de um castelo de cartas cujo fogo dos seus desejos não tardou em extingir. Já não existia mundo. O seu mundo. Pouco a pouco as vozes se calaram. Sobre a velha mesa de trabalho reinava o desconsolo. Nem mesmo o papel existia. Apenas o soluço que não calava. As lágrimas. Chorou naquela noite pelo que havia calado durante toda a vida.


Encontro e espanto: criação.

Junho 5, 2008

I

(texto publicado no meu fotolog em 29 de maio de 2008 )

Diz-se que a nossa primeira atitude diante da vida deve ser a do espanto: quando conseguimos apreender todo lado trágico da existência. Mas, o espanto ocorre no encontro do homem com o outro: o mundo. O outro que é tão pleno de certeza quanto ele, e que por isso segue o seu caminho, a princípio, em paralelo.

Mas quando as histórias se cruzam, interrompe-se a apneia: respira-se, enfim. Como se num choque subterrâneo, o eu e o outro acordassem de um delírio e procurassem por ar. Cria-se, enfim, algo novo: consciências além do trágico, consciências que se reconhecem, braços que se dão e se equivalem. Vê-se, desta forma, no amor o gérmen da experiência ética.