Março 27, 2008
“(…)Lembrou-se de repente: a casa estava vazia, de venezianas descidas por causa do sol. Estava escuro. No patamar do primeiro andar uma menina, grudada ao muro, retinha a respiração. Era esquisito encontrar-se ali sozinha, enquanto toda a gente estava no jardim. Era esquisito e metia-lhe medo. Os móveis tinham omesmo ar de todos os dias, mas, ao mesmo tempo, estavam mudados. Tudo em torno dela era denso, pesado, secreto. Sob a estante e debaixo do consolo estagnavam sobras espesas. Ela não tinha vontade de fugir mas sentia o coração apertado.
No espaldar de uma cadeira estava pendurado um casaco velho. A velha Anna limpara-o com benzina, ou tirara-lhe a nafitalina e pusera-o ali a toamr ar. Era muito velho, tinha um ar cansado. Não podia, no entanto, queixar-se, como Françoise se queixava quando se magoava, não podia mesmo dizer, lamentando-se: “Sou um velho casacom fatigado”. Tudo isso era estranho. Françoise tentou pensar como se passariam as coisas se não pudesse dizer: “Eu sou Françoise, tenho seis anos, estou na casa da vovó”, se não pudesse dizer absolutamente nada. É como se não existisse. E, no entanto, mesmo neste caso, as outras pessoas vinham aqui, viam-me, falavam de mim. Tornou a abrir os olhos: voltou a ver o casaco que existia sem ter consciência disso. Havia qualquer coisa que a irritava, que lhe metia medo. Para que lhe serve existir se ele não sabe disso? Refletiu: Talvez haja um meio de resolver o problema…Visto que posso dizer “eu” por que não hei de dizê-lo em lugar do casaco? Afinal, ficou desapontada. Por mais que olhasse o casaco, sem ver mais nada, e por mais que dissesse “sou velho, estou fatigado”, nada se passava. O casaco continuava ali, indiferente, estranho, e ela continuava a ser Françoise. De resto, se ela se transformasse no casaco deixaria de ter conhecimento das coisas. Sentiu então que a cabeça lhe andava à roda e desceu a correr para o jardim.” Simone de Beauvoir, p. 135/36, A Convidada.
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Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Março 27, 2008
“As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas”
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Escrito por Juliana de Albuquerque K.