(ADVERTÊNCIA: Escrever sobre a culpa não é uma tarefa fácil, e muitas vezes pode nos deixar em situações desconfortáveis onde as pessoas não compreendem se acreditamos ou não na moral. Todavia, tenho quase certeza que pude deixar claro o meu interesse em preservar a importância do agir moral. Embora o tema não mereça ser tratado em um único post, afirmo que não tenho interesse em me aprofundar no assunto pelo momento, tanto por falta de tempo quanto por impedimentos provocados pelas minhas mais íntimas convicções e pela minha falta de maturidade enquanto ao trato de uma matéria tão delicada. Peço desculpas pelo uso da línguagem que por vezes poderá parecer equivocada, mas o “texto escrito” diante da manifestação do pensamento, sempre deixará algo a desejar, ao contrário do que se procura expor através da oralidade. Afinal, esforço que se faz em produzir um texto é muitas vezes capaz de trair as próprias intenções iniciais do autor, que ao temer uma interpretação falsa por parte do seu leitor, acaba se deixando levar pelo pudor com isso prejudicando a exposição da sua idéia.
do Lat. culpa
s. f.,
acção repreensível praticada contra a moral ou a lei;
falta;
pecado;
delito;
ofensa;
responsabilidade;
causa, origem.
Remorso
do Lat. remorsu, remordido
s.m.,
inquietação da consciência por culpa ou crime cometido; contrição.
Admitir que a culpa seja um sentimento existente não implica em dizer que estamos permanentemente em estado de culpa por algo que sequer chegamos a efetivar como ação. Assim, dizer que carrego culpa por algo que possuo no meu inconsciente me parece estranho, tanto porque o conceito de inconsciente me parece impróprio: ora, não sou outra coisa que fenômeno, e como tal não posso ser algo outro que a minha própria manifestação.
Acreditar que existe em mim uma essência anterior ao meu ato, capaz de definir os meus medos, as minhas paixões e vontades é estranho para alguém dado ao estudo da Fenomenologia. Principalmente porque torna a afirmar o contra senso Kantiano de que jamais sermos capazes de conhecer a coisa em si. E, não me vejo dotada de qualidades a priori, porque as qualidades são em sua medida adquiridas enquanto como existente o meu ser aplica sobre si uma reflexão, que posta diante de um meio intersubjetivo é capaz de afirmar a minha essência unicamente como manifestação de um processo, porque ressalto sou fenômeno entre fenômenos e existo apenas enquanto provo através do meu ato ser consciência a partir do outro: ser consciência de algo, ou seja, ser consciência intencional.
No mínimo, para não tornar os meus amigos tristes poderia conceber a noção de pré-consciência, ou seja, “de processos psíquicos latentes prontos para emergirem ou se tornarem objeto da consciência”. Afinal, isso poderia remeter o meu entendimento a dinâmica do desvelamento do ser, todavia não me atrevo a aprofundar tal colocação em virtude do meu parco conhecimento de psicanálise.
Nessa perspectiva volto à culpa. Um olhar ligeiro pelo dicionário nos demonstra que ela representa uma ação repreensível contra a moral, ou contra a lei. Culpa é pecado. E aqui, moral e lei se apresentam como objetos de conhecimento completamente exteriores a nós mesmos, como se houvessem sido postos no mundo por uma vontade que não a nossa vontade. A liberdade, então surgiria da prática do dever-ser. Entrementes, a liberdade não nos é exterior. O homem está condenado à Liberdade porque ela funda a sua essência e como tal deve manifestar-se. A obediência de um mandamento é antes de tudo a obediência a nossa própria vontade, enquanto vontade livre, e apenas enquanto razão, o que faz corresponder o nosso conteúdo consigo mesmo e, portanto nos afirma livres.
Mas, neste ponto acredito que posso sofrer a seguinte indagação: O pecado é uma falta que se comete contra uma lei de D’us. A lei divina, você diz independe da minha vontade, então sou livre? Sim. Porque não somos dissociados de D’us, mas atomizações de sua vontade, logo se Ele é ato puro, sou à medida que permaneço no tempo através dos meus próprios atos, a manifestação dos Seus atos. Isso não quer dizer que Ele determine as nossas escolhas, mas que nós por sermos partes Dele somos a Sua escolha, porque esta é a mais radical e, portanto única possibilidade: a Liberdade.
Não sei se ao dizer ‘nós por sermos parte Dele’ incorro em um erro lógico, pois o que quero realmente afirmar é que D’us é substância como afirma Spinoza, e como tal se demonstra como o “sistema determinante do qual tudo na natureza faz parte”. Igualmente pode parecer estranho afirmar que Ele seja ato puro, porque enquanto criaturas finitas compreendemos o agir como algo provocado por um sujeito, e logo se D’us não é sujeito não deveria ser possível dizer que age. Mas, Ele atua enquanto é a própria realidade, ou seja, enquanto é D’us ou Natureza: vida. Totalidade orgânica que é para si a sua própria causa, não necessitando de qualquer outra substancia para que lhe dê existência. Mesmo porque qualquer outra substancia seria impossível.
Consequentemente D’us não tem personalidade, porém atributos. E, ao agirmos afirmamos os seus atributos independentemente de adotarmos uma postura positiva ou negativa ante a realidade. Gosto da frase de Einstein que diz: “I believe in Spinoza’s God who reveals himself in the orderly harmony of what exists, not in a God who concerns himself with the fates and actions of human beings.” Os fatos e as ações humanas, enquanto dependem de uma causa, ou de um sujeito, permanecem ao nível da contingencialidade. Transcender, desvelar a nossa vontade enquanto vontade livre, ou razão, é buscar superar a contingencialidade através da nossa própria condição humana (ver post anterior), para nos realizarmos como liberdade-em-processo.
Ora, o pecado e a culpa são noções falíveis porque: 1) não são um estado permanente de espírito, conforme afirma St. Agostinho e a Igreja; 2) ao contrário, são simples ações nossas, erros que contrariam a manifestação da razão, ou da nossa vontade livre; 3) e, mesmo assim, não agimos de outra forma senão aquela conforme a nossa natureza; 4) o homem está condenado a liberdade, então por mais que façamos coisas erradas, contrárias a nós mesmos, estaremos colocando em marcha o nosso processo; 5) processo que é vida; 6) que é liberdade, natureza e substancia única; 7) que é por isso mesmo afirmação de D’us; 8.) que pelo Seu atributo de ser justo, porque é ciência da nossa própria finitude age não importa de qual maneira, através das nossas virtudes ou dos nossos defeitos, e por isso é a substancia em que mergulhamos os nossos atos: a Liberdade. 9) É por isso que não nos compete falar de D’us, porque Ele sempre será independentemente de nós, e o nosso agir é responsabilidade única nossa, portanto mesmo que consideremos o pecado como uma ação contrária a moral e a lei, estas não nos serão exteriores, e aquele não é senão uma violência que comentemos contra nós mesmos, ou contra a razão, em virtude da contingencialidade que apenas pelo movimento de transcendência será amenizada até que atinjamos o nosso limite; 10) mas, se condenados a efetivação da liberdade somos responsáveis pelos nossos atos, porque a D’us não exatamente concerne os nossos atos, para onde foi a culpa? Onde está o pecado?
Escrito por Juliana de Albuquerque K.