Ernildo Stein.

“Esse não-limite, esse excesso inserido na reflexão, permanece, de antemão, o horizonte frustrante de toda interrogação na imanência, no limite, na finitude. A preocupação central da filosofia será, então, romper sempre a barreira do finito, tender para o ilimitado e, a partir dele, compreender a reflexão filosófica. Isso instaura uma atitude negativa da interrogação na finitude e impede a adequada compreensão da condição humana do filosofar, em si mesma. Todo esforço se dispenderá em abrir caminhos para o “outro lado” (epekeina) e a verdadeira seriedade consistirá em manter aberto o horizonte virtualmente infinito pela transcendência, pela analogia ou pela dialética. Esquece-se, assim, de interrogar por que ela mantém a exigência contínua de uma abertura. Omite-se o fato de que, precisamente, a busca do ilimitado é a afirmação do limite, de que a necessidade do horizonte infinito é uma imposição da radical finitude. Assim, não se toma suficientemente a sério a finitude como o chão de toda experiência de ser.  Para compreender o verdadeiro movimento da interrogação na finitude não basta ao finito o infinito, ao mundo da experiência humana o ser subsistente, ao temporal o eterno, seja através da analogia, da dialética ou da reflexão transcendental. O que, assim, se abre permanece exigência. Mas, o modo de responder a ela se realiza pelo movimento da finitude. Somente assim, se respeitará a positividade da finitude. Somente dessa maneira, a partir da análise da finitude do homem, será possível determinar o ser do que é eterno, atemporal, subsistente ou infinito. Caso contra´rio, o transcendental será apenas um álibi da finitude e não será compreendido na sua dimensão positiva. Caso contrário, tanto o finito como o infinito serão pensados apenas negativamente, sendo ambos a negação um do outro. Uma filosofia, que procura pensar seriamente a condição da interrogação na finitude, surge, então como um movimento que segue a direção oposta à da tradição. Ela renuncia ao modelo absoluto da reflexão autotransparente, da noesis noeseos, da consciência transcendental, presente, tanto na filosofia da substância, como na filosofia da subjetividade. Tal filosofia não partirá, portanto, dos pressupostos de uma teologia natural. É, por isso, evidente que uma tal interrogação será dotada de uma estrutura básica fundamentalmente diferente da tradição filosófica. Simplesmente porque ela parte de uma dimensão essencialmente finita, radicada na finitude do homem, seu modo de colocar a questão do ser e da verdade se afirmará numa outra perspectiva. A direção de tal filosofia será oposta à da metafísica da luz que perpassa a tradição. O problema do ser e da veradade surgirá da própria análise da finitude da condição humana, da finitude da interrogação pelo ser e pela verdade.” Ernildo Stein, Compreensão e Finitude: estrutura e movimento da interrogação heideggeriana, p. 22-23.

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