Simone de Beauvoir.
Março 27, 2008Quote!
Março 27, 2008“(…) É possível que, a despeito de invenções e progressos, a despeito da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado à superficie da vida? É possível que se tenha recoberto mesmo esta superfície – que no fim e ao cabo seria ainda alguma coisa – com uma substância incrivelmente enfadonha, que a torna parecida com móveis de salão durante férias de verão?” Rilke, Os Cadernos de Malte L. Brigge.
Luiza Neto Jorge.
Março 27, 2008“As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas”
Akira + Rammstein.
Março 27, 2008
“Nichts ist für dich
nichts war für dich
nichts bleibt für dich
für immer”
Bloco de Notas.
Março 26, 2008Assim, o dia se desfez. Renato, cansado, deixou o seu apartamento e foi buscar o mundo numa mesa de bar. A noite era clara e, todas as luzes da cidade cintilavam, através da garrafa, naquela mesa em que guardava a sua alma vazia num copo cheio.
A mesa de tantos outros. A mesa gasta, tal uma puta era preta e velava em sí uma desgraça: Renato.
Era o uivar do vento e mais nenhum outro sentimento, uma escolha sem maiores possibilidades.
Outubro.
Março 26, 2008PARTE I
Madrugada em Porto Alegre. Aeroporto Salgado Filho. O trem de aterragem tocou a pista molhada. “Senhoras e senhores, informamos a chegada ao Aeroporto Salgado Filho, pedimos para que permaneçam sentados até a parada da aeronave. Bem-vindos à Porto Alegre. A meterologia aponta tempo chuvoso, a temperatura não deverá ultrapassar os 14 graus. Ladies and Gentlemen…”
“deep within the abbatoir
of your entrails your insides
lost in you forever far from home”
Os dedos de Alice tocaram os bolsos da jaqueta. “Moça, preciso de um copo d’água.” Sem mesmo tirar a caixa de remédios do bolso esquerdo, ela destacou um comprimido da cartela. “Aqui está, senhora.” Rompeu o lacre do copo plástico. Prendeu o comprimido entre os lábios. Olhou pela janela. O céu estava cinza, quase negro: maravilha. E logo depois uma corrente de água fresca carregou para dentro do seu corpo a calma que lhe faltava para ser feliz. “Obrigada.” Desligou o mp3 player, juntou o livro e as canetas que estavam no seu colo e finalmente decidiu desprender-se do assento. “Dentro de alguns minutos: um expresso e alguns cigarros.”
Queria apagar da memória as cenas da noite anterior. A mala ainda estava aberta sobre a sua cama. Quando o telefone tocou ainda existia muito que fazer, mas ele disse: tinha pressa. Usou a velha desculpa do livro emprestado e minutos depois buzinou à sua porta. Foram comer uma pizza. No caminho para a lanchonete: silêncio. A chuva fina enchia o pára-brisa de gotas d’água e através delas as luzes da cidade pareciam pedras preciosas. Uma música estourou na sua cabeça, como um tiro a queima roupa, ou um eco distante, uma voz num pesadelo: “se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar, e cobria com pedrinhas de brilhante só para ver o meu amor passar.”
Mas a noite, e a chuva que espelhava as luzes tênues dos postes assemelhava-se a uma selva escura por onde se havia perdido o caminho direito da sua vida. Alice tinha plena certeza de que dentro daquele carro e diante dos olhos que fitavam o seu rosto encontraria apenas a solidão. Era necessário deixar para trás toda esperança: qualquer tipo de crença era uma mentira.
Sinal amarelo ao fim da avenida deserta. A visão de um estacionamento anunciou uma dúvida: Eduardo não se parecia com o garoto do retrato. Mas, existiria mesmo o garoto do retrato? E o seu beijo sem vida tocou os lábios de Alice como uma navalha. Ela se deixava subjugar pela dor como se aquela presença fosse capaz de deletar os seus desejos. Era tarde e não poderia dar para trás. As mãos de Eduardo apertavam a sua cintura e esticavam a sua carne como se abrissem as janelas que davam para dentro da sua alma e cruzassem as sete portas de sua morada: para matar e rever em cada quarto cada membro da sua família.
Alice se deixava sufocar pelo seu abraço e pelo horror. Enquanto isso na sua casa a mala permanecia aberta sobre a cama. “Admita que sentiu a minha falta.” e novamente fechou os olhos escutando o barulho da chuva sobre o capu do carro. “Não.” Dentro de algumas horas entraria num avião e talvez diante dos seus olhos outra pessoa, outro Eduardo permanecesse convicto e orgulhoso do sofrimento que parecia lhe causar. Ele riu. Achava graça no seu excesso de dignidade. “Sempre soube que a sua gente era incapaz de amar.”
Mas, toda a sua gente estava morta. Enterrada sobre a sua lascívia. E, pela primeira vez Alice sentiu-se covarde. Lembrou-se do seu pai debruçado sobre um quadro negro lhe ensinando as primeiras palavras dos seus avós. E por um segundo pensou em destruir o sorriso macabro que se aproximava novamente dos seus lábios. “Já não quero pizza. Vamos embora”. Ela mesma estava morta. E já não se fazia possível acreditar que qualquer coisa tivesse algum sentido.
Quando voltou para casa terminou de arrumar a mala. Contemplou o vazio no seu quarda-roupas e pensou consigo mesma que aquela viagem se tratava de um exílio. Sete dias em total solidão entre os trabalhos que haveria de apresentar e decisões que precisaria tomar. Acendeu um cigarro e tragou profundamente a fumaça azeda do Malboro, quase um purgante para o beijo que ansiava afastar dos seus lábios. No canto esquerdo do quarto percebeu um pacote de xerox, a mesma história estaria para se repetir. Mais uma vez o olhar e o estrago. Talvez a vida fosse isso: um salto constante entre hedonismo e estoicismo. E não foi nisso que desde pequena lhe fizeram acreditar.
Mas às cinco da manhã no Aeroporto Salgado Filho o frio era uma constante. Pousou a mala num carrinho e procurou o primeiro Café. Ordenou um expresso e dois croissants. E, enquanto comia pensou novamente no menino do retrato e no sorriso que lhe havia definhado a consciência. Pediu para a garçonete papel e caneta. Algumas vezes era notória a sua capacidade de perder o senso: a ponta da caneta cruzou os extremos da folha e ela sabia que lá existia mais do que um conjunto de pontos. Durante alguns instantes permaneceu olhando a linha azul sobre a folha branca. A mesma linha que corta é a que separa, pensou e os seus dedos procuraram escapar o destino de todo esquecimento. Diante dos seus olhos a reta fazia o contorno do horizonte. Uma imensidão branca se pronunciou sobre a mesa, como numa manhã glacial reduzindo cada objeto a brancura do gelo. Alice refez mais uma vez com os dedos sujos de açucar a trajetória da reta mal desenhada sobre o papel vagabundo. Papel de reflorestamento. Estava cansada e o remédio fazia efeito. Porém desejava pixel por pixel daquele sorriso preso numa foto retida numa tela de computador. Deixou escapar um suspiro. Atirou o papel no lixo. Pagou a conta. O seus dedos tornaram a visitar os bolsos da jaqueta. Era hora de voltar à realidade. Apertar o play e talvez escutando música esperar serem lançados os dados do acaso.
Culpa?
Março 24, 2008(ADVERTÊNCIA: Escrever sobre a culpa não é uma tarefa fácil, e muitas vezes pode nos deixar em situações desconfortáveis onde as pessoas não compreendem se acreditamos ou não na moral. Todavia, tenho quase certeza que pude deixar claro o meu interesse em preservar a importância do agir moral. Embora o tema não mereça ser tratado em um único post, afirmo que não tenho interesse em me aprofundar no assunto pelo momento, tanto por falta de tempo quanto por impedimentos provocados pelas minhas mais íntimas convicções e pela minha falta de maturidade enquanto ao trato de uma matéria tão delicada. Peço desculpas pelo uso da línguagem que por vezes poderá parecer equivocada, mas o “texto escrito” diante da manifestação do pensamento, sempre deixará algo a desejar, ao contrário do que se procura expor através da oralidade. Afinal, esforço que se faz em produzir um texto é muitas vezes capaz de trair as próprias intenções iniciais do autor, que ao temer uma interpretação falsa por parte do seu leitor, acaba se deixando levar pelo pudor com isso prejudicando a exposição da sua idéia.
do Lat. culpa
s. f.,
acção repreensível praticada contra a moral ou a lei;
falta;
pecado;
delito;
ofensa;
responsabilidade;
causa, origem.
Remorso
do Lat. remorsu, remordido
s.m.,
inquietação da consciência por culpa ou crime cometido; contrição.
Admitir que a culpa seja um sentimento existente não implica em dizer que estamos permanentemente em estado de culpa por algo que sequer chegamos a efetivar como ação. Assim, dizer que carrego culpa por algo que possuo no meu inconsciente me parece estranho, tanto porque o conceito de inconsciente me parece impróprio: ora, não sou outra coisa que fenômeno, e como tal não posso ser algo outro que a minha própria manifestação.
Acreditar que existe em mim uma essência anterior ao meu ato, capaz de definir os meus medos, as minhas paixões e vontades é estranho para alguém dado ao estudo da Fenomenologia. Principalmente porque torna a afirmar o contra senso Kantiano de que jamais sermos capazes de conhecer a coisa em si. E, não me vejo dotada de qualidades a priori, porque as qualidades são em sua medida adquiridas enquanto como existente o meu ser aplica sobre si uma reflexão, que posta diante de um meio intersubjetivo é capaz de afirmar a minha essência unicamente como manifestação de um processo, porque ressalto sou fenômeno entre fenômenos e existo apenas enquanto provo através do meu ato ser consciência a partir do outro: ser consciência de algo, ou seja, ser consciência intencional.
No mínimo, para não tornar os meus amigos tristes poderia conceber a noção de pré-consciência, ou seja, “de processos psíquicos latentes prontos para emergirem ou se tornarem objeto da consciência”. Afinal, isso poderia remeter o meu entendimento a dinâmica do desvelamento do ser, todavia não me atrevo a aprofundar tal colocação em virtude do meu parco conhecimento de psicanálise.
Nessa perspectiva volto à culpa. Um olhar ligeiro pelo dicionário nos demonstra que ela representa uma ação repreensível contra a moral, ou contra a lei. Culpa é pecado. E aqui, moral e lei se apresentam como objetos de conhecimento completamente exteriores a nós mesmos, como se houvessem sido postos no mundo por uma vontade que não a nossa vontade. A liberdade, então surgiria da prática do dever-ser. Entrementes, a liberdade não nos é exterior. O homem está condenado à Liberdade porque ela funda a sua essência e como tal deve manifestar-se. A obediência de um mandamento é antes de tudo a obediência a nossa própria vontade, enquanto vontade livre, e apenas enquanto razão, o que faz corresponder o nosso conteúdo consigo mesmo e, portanto nos afirma livres.
Mas, neste ponto acredito que posso sofrer a seguinte indagação: O pecado é uma falta que se comete contra uma lei de D’us. A lei divina, você diz independe da minha vontade, então sou livre? Sim. Porque não somos dissociados de D’us, mas atomizações de sua vontade, logo se Ele é ato puro, sou à medida que permaneço no tempo através dos meus próprios atos, a manifestação dos Seus atos. Isso não quer dizer que Ele determine as nossas escolhas, mas que nós por sermos partes Dele somos a Sua escolha, porque esta é a mais radical e, portanto única possibilidade: a Liberdade.
Não sei se ao dizer ‘nós por sermos parte Dele’ incorro em um erro lógico, pois o que quero realmente afirmar é que D’us é substância como afirma Spinoza, e como tal se demonstra como o “sistema determinante do qual tudo na natureza faz parte”. Igualmente pode parecer estranho afirmar que Ele seja ato puro, porque enquanto criaturas finitas compreendemos o agir como algo provocado por um sujeito, e logo se D’us não é sujeito não deveria ser possível dizer que age. Mas, Ele atua enquanto é a própria realidade, ou seja, enquanto é D’us ou Natureza: vida. Totalidade orgânica que é para si a sua própria causa, não necessitando de qualquer outra substancia para que lhe dê existência. Mesmo porque qualquer outra substancia seria impossível.
Consequentemente D’us não tem personalidade, porém atributos. E, ao agirmos afirmamos os seus atributos independentemente de adotarmos uma postura positiva ou negativa ante a realidade. Gosto da frase de Einstein que diz: “I believe in Spinoza’s God who reveals himself in the orderly harmony of what exists, not in a God who concerns himself with the fates and actions of human beings.” Os fatos e as ações humanas, enquanto dependem de uma causa, ou de um sujeito, permanecem ao nível da contingencialidade. Transcender, desvelar a nossa vontade enquanto vontade livre, ou razão, é buscar superar a contingencialidade através da nossa própria condição humana (ver post anterior), para nos realizarmos como liberdade-em-processo.
Ora, o pecado e a culpa são noções falíveis porque: 1) não são um estado permanente de espírito, conforme afirma St. Agostinho e a Igreja; 2) ao contrário, são simples ações nossas, erros que contrariam a manifestação da razão, ou da nossa vontade livre; 3) e, mesmo assim, não agimos de outra forma senão aquela conforme a nossa natureza; 4) o homem está condenado a liberdade, então por mais que façamos coisas erradas, contrárias a nós mesmos, estaremos colocando em marcha o nosso processo; 5) processo que é vida; 6) que é liberdade, natureza e substancia única; 7) que é por isso mesmo afirmação de D’us; 8.) que pelo Seu atributo de ser justo, porque é ciência da nossa própria finitude age não importa de qual maneira, através das nossas virtudes ou dos nossos defeitos, e por isso é a substancia em que mergulhamos os nossos atos: a Liberdade. 9) É por isso que não nos compete falar de D’us, porque Ele sempre será independentemente de nós, e o nosso agir é responsabilidade única nossa, portanto mesmo que consideremos o pecado como uma ação contrária a moral e a lei, estas não nos serão exteriores, e aquele não é senão uma violência que comentemos contra nós mesmos, ou contra a razão, em virtude da contingencialidade que apenas pelo movimento de transcendência será amenizada até que atinjamos o nosso limite; 10) mas, se condenados a efetivação da liberdade somos responsáveis pelos nossos atos, porque a D’us não exatamente concerne os nossos atos, para onde foi a culpa? Onde está o pecado?
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.