“Agora ouve-se uma sirene dentro da escuridão. Porque a escuridão é absoluta lá fora, a não ser por um fino traço de tom violeta radioativo na linha do horizonte. Uma sirene na escuridão conforme as palavras de Jesus, “um lamento e um ranger de dentes.” Teria sido um barco? Ou um trem chegando das estepes? Difícil saber, poqrue também o vento sopra num frenesi de tom único e agudo. E a falta de luz continua. Meus olhos doem por escrever nesta luz mortiça. Tenho aqui no escritório uma cama, um armário e um pequeno banheiro. Mas a cama estreita, entre dois arquivos de metal, subitamente me amedronta. Como se houvesse nela um cadáver. Certamente são apenas as roupas que despejei apressado da mala quando voltei de Londres esta manhã.
Outra vez a sirene. Agora, mais perto. Portanto não é um barco nem um trem, mas um veículo de emergência. Ambulância? Carro de polícia? Houve um crime em uma das ruas próximas. Alguém está com problemas. Ou começou um incêndio – uma casa incendiou-se e ameaça levar consigo os vizinhos e todo o quarteirão? Um homem decidiu que basta e pulou do telhado de m arranha-céu? Alguém que viveu pela espada morreu pela espada?
A luz de emergência lança sua palidez sobre mim. É uma luz fantasmagórica de mercúrio, como as das salas de operações. Antigamente eu gostavade você, e tinha uma imagem na cabeça: eu e você numa noite de verão, sentados na varanda da nossa casa diante das colinas de Jerusalém, o menino brincando com alguns tijolos. Taças de soevete sobre a mesa. E um jornal que não estamos lendo. Você borda uma toalha e eu construo uma cegonha com uma pilha de palitos. Era essa a imagem. Não fomos capazes. E agora é tarde.” A Caixa-Preta, Amós Oz.
Fevereiro 13, 2008 às 3:14 pm |
Deliciosa a narrativa! =O Fiquei realmente com vontade de ler este livro, do qual já tinha ouvido falar bem.
Como você consegue ler tanto?
Eu não estou dando conta das minhas atividades, mais uma vez. Tenho um concurso domingo e mal estudei! >___<
Waaahhhh!!!
Fevereiro 14, 2008 às 4:29 pm |
no mínimo, violento. porém lindo, belo, e, ao mesmo tempo violento… como a violência pode relacionar-se com o belo enquanto sublime? um dia compreendo… por hora, somente sinto. Impossível não te agradecer por este post.