Alguma vez você já sentiu como se o seu laço com o mundo estivesse prestes a se desfazer? Faz um ano um sentimento muito estranho tomou conta de mim. Como se estivesse rodeada pelo mais absoluto silêncio não percebo a mágica que as pessoas podem proporcionar umas as outras com os seus movimentos e as suas palavras. A linguagem já não parece ser algo capaz de me chamar à realidade. Existe um abismo sem fundo entre mim e os outros. Esses outros que não são outros de mim mesma, mas permanecem afixados numa paisagem como os bonecos desprovidos de volume numa colagem onde se misturam cores e cenários pobres de sentido. Eis o que me aborrece: nada mais faz sentido. E, no entanto quando afirmo tal coisa sinto medo. Afinal, se tudo não passa de um enorme engano o que posso dizer de mim mesma? Se a linguagem já não é suficiente, e falha no mais simples gesto das minhas mãos, ou nas palavras que articulo em meus lábios. O que sou eu diante deste mundo que não me pertence? Ou que me pertence, mas do qual me subtraio. E, por que me subtraio?
O primeiro passo para alcançar a resposta para todas essas questões está no meu engajamento com o próprio vazio que sinto. É unicamente através dele e de sua manifestação sem pré-questionamentos que posso ensaiar me situar diante de mim, e diante do outro que permanece desconhecido. Neste vazio, na medida em que me ausento de mim, devo encarar como possibilidade o que sou diante do outro. Talvez isto funcione como uma experiência de quase-morte onde as pessoas dizem estar postas acima dos seus próprios corpos enquanto observam o desdobramento do que lhes será feito. Então, flutuo neste vazio. E se o outro me é apresentado como carente de dimensões, também eu estou como ele carente de dimensões: não tenho peso. Sou mais um boneco afixado sobre uma colagem. Porque essa colagem é a nossa realidade última. E, até que saiba romper esse destino ou ultrapassar o abismo que me separa do mundo preciso encontrar uma maneira de me fazer outro, e isto só é possível na medida em que encontre uma maneira de me comunicar. Para isso não posso estar apenas ausente de mim, afinal não é suficiente alienar-se o que resultaria apenas na mesma (falta de) situação que vivencio no presente, mas é necessário que em me ausentando de mim mesma sinta fome de estar novamente comigo. É neste ponto que não posso me deixar subtrair, mas apenas ocultar. Pois, se tenho fome de mim e vontade de estar comigo, este mundo é obra do que faço para alcançar novamente a mim mesma através do outro, para quem sou o outro. E porque ele também sente fome de si, este mundo é nosso e apenas unidos pela linguagem que nos permanece ainda desconhecida seremos capazes nos lançarmos ao que somos. E o que somos exige volume, pois o desvelar de nós mesmos demonstra cada aspecto do que já deixamos de ser, e mesmo assim permanecemos. Porque o que somos é o que jamais conseguiremos ser, senão em devir. Assim, do volume das nossas próprias dimensões nasce o peso que apenas aquele para quem ainda não sou consegue sentir, mas que logo, mediante a força que aplico contra mim mesma para me soltar do cenário em que me encerro (o silêncio) sentirei com toda violência. Este peso sobre o qual repousa o meu corpo é a prova da minha liberdade.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.