Faz algum tempo estive convencida de que existiria no mundo qualquer verdade bem convencional, e que um instinto de permanência preservava a minha sanidade. Hoje, a realidade se desfaz. Sou eu quem faz tombar toda certeza. Quando despertei esta manhã, na minha cama existia um cadáver preso ao meu corpo, seus braços enroscados na minha cintura. Era o amplexo da morte anunciado antes mesmo do derradeiro fim. Imediatamente senti vontade de gritar. Estremeci. Uma respiração quente fez arrepiar os pêlos do meu pescoço. Afinal, não era um morto: Henrique dormia. Apertava-me contra o seu corpo, mas tudo não passava de uma impostura.
Impossível sentir a realidade daquela massa de carne que me comprimia ao seu encontro. Para mim, mesmo o despertar dos seus sentidos era indiferente. A cama, os lençóis, o travesseiro onde confortavelmente repousava a minha barriga, nada daquilo possuía uma significação. Onde estava? Não encontrava os objetos, e me deixava perder em devaneios: naquele recanto de mundo, eu mesma já não era mais coisa alguma, e tudo permanecia encerrado no vácuo de qualquer possibilidade.
Fechei os olhos. Não acordar jamais. Sentir que aqueles braços gradativamente apagavam-se sobre a minha pele, como as luzes de uma cidade ao anunciar o seu sono profundo. Preciso lhe dizer a verdade: “acabou.” Parecia simples, me desvencilharia do seu toque, guardaria o seu último olhar na minha retina, e gravaria a sua reação ao som do meu veredicto. Depois, o dia voltaria a sorrir, as luzes da cidade tornariam a apagar, não sobre queixa de sono e cansaço, mas por necessidade de arrancar a vida sob o próximo sol nascente.
Saltei para fora da cama como se deixasse o mundo para trás. Meti o corpo nu dentro do chambre e apanhei do chão a carteira de cigarros: Lucky Strike. Precisava tomar um pouco de ar e por isso atravessei a porta do quarto rumo à varanda do apartamento. Tudo parecia escuro e, no entanto era o início de uma manhã de domingo.
Quatro e meia da manhã. Os móveis ainda deixavam as suas sombras nas paredes quando Henrique me surpreendeu sentada na espreguiçadeira. Domingo. Houve um período em que a sua presença fora capaz de entorpecer esses longos dias de espera. Mas o tempo foi mais forte em me fazer perceber que nem mesmo o corpo que me abraçava, ou dos sonhos de permanência e fidelidade, seriam capazes de manter a minha vida confortavelmente aprisionada.
– O que você quer que eu faça?
- Quero que seja livre. – era muito simples: continuássemos daquela maneira, cada qual se acovardando diante dos acontecimentos jamais seriamos capazes de sentir um pelo outro qualquer coisa outra que repulsa. Encarar a realidade daquele homem que pedia permissão para me tomar em seus braços era o mesmo que enfrentar a verdade de que ao nosso redor persistia uma atmosfera de inessencialidade.
“Quero que seja livre.” Quero que desapareça da minha frente, mas antes me sirva um copo com gelo e uma dose de uísque. Porque estou cansada do seu corpo, já tirei dele todos os beijos e nem mesmo a sua consciência me agrada. Nem mesmo a minha consciência me agrada. Quero estar só. Quero tragar o meu cigarro e sentir mais uma vez o peso da morte me ligar a este chão. Suma e carregue com você o reflexo da minha incompetência. Não quero ser; não quero ser você.
E quando esse pensamento finalmente cortou a minha garganta senti a minha voz se perder e as lágrimas rolarem pelo meu rosto como se houvesse despertado de um longo pesadelo para a mais imediata e doce realidade. Estava finalmente onde deveria: nenhuma certeza seria novamente capaz de obstacular a verdade do mundo que acabava de nascer para se desvelavar sem pressa diante dos meus olhos.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.
Escrito por Juliana de Albuquerque K.