Sou daquelas pessoas que sentem um amor incondicional por sebos. Descobri o Sebo Brandão ainda no começo da minha adolescência e desde então passei a dedicar algumas tardes ao meu hábito solitário de meditação e enriquecimento espiritual: a leitura e compra de livros usados.
Se fizermos uma pequena análise das minhas estantes veremos que pelo menos 70% dos meus livros pertenceram à outras pessoas. A maioria é gente desconhecida, gente que acredito estar morta, ou ter encontrado algo melhor para fazer na vida que estudar Merleau-Ponty, ler os romances de Sartre, discutir o feminismo de Beauvoir ou simplesmente fazer o estudo da Fenomenologia do Espírito de Hegel.
Um livro sempre significou para mim uma grande viagem de descoberta. Quando me preparo para uma leitura sinto que incorporo o espírito de aventura dos grandes navegadores. Mas, quando me apercebo de que na folha de rosto de um livro existe um nome estranho e uma data que guarda um passado distante tudo se torna ainda mais fascinante. Acho que me transformo numa Jacques Cousteau das letras, ou na melhor das hipóteses penso ser uma pirata saqueando tesouros repletos de pensamentos luminosos.
Gosto do cheiro de livro velho! Até mesmo sinto a mais profunda admiração pelos ácaros, traças e outros bichos simpáticos que encontro perdido durante a minha viagem. O que será que eles sabem do passado? Qual será o gosto da celulose que devoram? Para onde irá me levar aquele furo feito bem na barriguinha da letra ‘a’, ou a marca de sangue de mosquito presa numa página?
A traça que encontrei na página 230 me apontava uma observação pessoal sobre uma poesia:“das bin ich!”. Aprendi que o viajante anterior além de gostar de boa literatura sabia falar alemão. Na folha de rosto encontrei o seu nome assinado com caligrafia firme. Era homem e me perguntei qual idade teria em 1976. Além disso, por que considerava aquela poesia como sua própria essência? Deveria ser uma pessoa interessante. Daquelas que a gente pode passar horas conversando num café comendo biscoitos de nozes e tomando uma boa xícara de Earl Grey.
Provavelmente de tanto freqüentar Brandão dos 13 aos 17 anos fiquei amiga de uns cem números de fantasmas. E, toda sexta-feira depois da aula de matemática tomava o ônibus da Torre rumo a Conde da Boa Vista para atravessar a Rua do Hospício e ir bater na lateral da Igreja da Imperatriz. Procurava desde gramáticas de russo e livros de toxicologia a romances policiais e livros sobre as duas grandes guerras ou a revolução bolshevique. E, na sala repleta de estantes, escadas e livros me sentava no chão para ler Os Dez Dias que Abalaram o Mundo. Esquecia que existia o tempo. Era transportada para o embrião do regime soviético, e as agitações dos últimos anos de Nicolau II no poder. Parecia que a padaria de frente para a Praça Maciel Pinheiro havia se transformado na fachada do Palácio de Inverno e estávamos todos em São Petersburgo de 1905. A fila que se arrastava pela calçada do Banco Bradesco era em verdade uma multidão de operários prestes a ser abatida. Mas, quando finalmente conseguia escapar dos soldados e das balas só uma frase saia da minha boca: “uma broa de milho e um refrigerante, por favor.”
Mas, festa mesmo era quando finalmente conseguia juntar a minha mesada para comprar qualquer livro. O primeiro deles foi “Assassinato no Expresso Oriente”, nem o manual de toxicologia ou a gramática de russo estavam dentro do meu poder de compra. Para adquiri-los deixaria de tomar o lanche no colégio durante um ano e isso era desumano! “O senhor tem que baixar o preço. Eu só tenho 13 anos, entende? Vamos lá! Quem vai pagar trinta Reais por um livro desses? Faça quinze! Estou aqui quase todos os dias!”.
Entre 2006 e 2007 voltei ao mundo dos sebos. Em Recife descobri a Livraria Progresso e as barraquinhas de livro no Beco da Fome. Lugares fantásticos! O último então é um dos lugares mais surreais que já visitei. Quando lhe faço uma visita gosto de comprar os meus livros e depois ler um pouco sentada na Seção de Filatelia da Central dos Correios. Nessas ocasiões sempre levo comigo um pacote de biscoitos e uma garrafa d’água com gás. É bastante divertido e nesses dias sempre me acontecem as coisas mais extraordinárias.
Mas, não foi em Recife que encontrei o sebo dos meus sonhos. Quando estive ano passado em Porto Alegre e encontrei a Livraria Nova Roma (acho que foi esse) e fiquei literalmente extasiada. Além de encontrar a maioria dos livros que pretendia comprar naquela cidade, o lugar era simplesmente lindo com os seus móveis antigos e ares parisienses. Acho que nos cinco dias que passei naquela cidade não teve um dia sequer que passei sem visitar um sebo. E foi difícil escolher um de minha preferência, porque cada um tinha o seu encanto. Fosse um grande estabelecimento hiper organizado, ou um puxadinho na beira da calçada. Sempre encontrava pessoas diferentes para conversar desde o intelectual engajado, ao admirador de Derrida ou leitor de Goethe. O que me deixou com a sincera e deliciosa impressão de estar numa capital de leitores ou de pessoas que assim como eu nutrem uma séria paixão por sebos.
Deixo vocês hoje com um trecho dos Cadernos de Malte Laurids Brigge um dos meus grandes reencontros de 2007, possível apenas pela existência da Livraria e Sebo Brandão:
“Aprendo a ver. Não sei porquê, tudo penetra mais fundo em mim e não pára no lugar onde até agora acabava sempre. Tenho um interior de que não sabia. Tudo lá vai dar agora. Não sei o que ali acontece.
Ao escrever hoje uma carta, dei conta de que há só três semanas que aqui estou. Três semanas em qualquer outra parte, no campo por exemplo, podiam parecer um dia; aqui são anos. Também já não quero escrever mais cartas. Para que hei - de eu dizer a alguém que estou mudando? Se estou mudando, já não sou aquele que fui, e, se sou diferente do que fui até agora, é claro que não tenho conhecidos. E a estranhos, a pessoas que me não conhecem, é evidente que não posso escrever.
Já disse? Aprendo a ver. Sim, estou a começar. Ainda vai mal. Mas vou aproveitar o meu tempo.
Por exemplo: que nunca tenha tido consciência de quantas caras há. Há muitas pessoas, mas há ainda muitas mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como as luvas que se usaram em viagem. São as pessoas simples, (…); não mudam de cara. nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas; e quem é que lhes pode provar o contrário? Mas perguntar-se-á: Se têm várias caras, que fazem das outras? - Guardam-nas. Serão para os filhos. Mas acontece também os seus cães saírem com elas. E porque não? Uma cara é apenas uma cara.
Outras pessoas pórem as suas caras com uma rapidez medonha, uma após a outra, e gastam-nas. Parece-lhes a princípio que lhes chegam para sempre, mas, mal chegam a quarenta - eis a última. Isto tem naturalmente o seu trágico. Não estão habituadas a poupar as caras; a última gastou-se ao cabo de outro dias, tem buracos, está em vários sítios delida e fina como um papel, e, a pouco e pouco, vai aparecendo a pasta de baixo, a não-cara, e é com essa que andam.
Mas aquela mulher, aquela mulher, aquela mulher!: tinha-se recolhido totalmente em si mesma, inclinada para diante, apoiada nas mãos. Foi na esquina da Rue Notre-Dame-des-Champs. Logo que a vi, comecei a andar devagar. Quando os pobres se põem a pensar, não devemos incomodá-los. Talvez consigam por fim lembrar-se.” Rainer Maria Rilke, tradução de Paulo Quintela.
Janeiro 13, 2008 em 11:58 pm
Uau!
Nossa, foi muito prazeroso para mim ler esse seu post, e eu devo dizer que admiro muito seu gosto por sebos, e toda essa paixão intensa que você descreveu por livros usados, sua história, etc. Confesso que eu não gosto muito de livros usados, inclusive porque sou alérgico a poeira! >___<
Mas… foi tocante. Eu quero ir com você num sebo algum dia. Pode ser?
Interessante o excerto de livro que você postou. As pessoas têm mesmo várias caras, e muitas vezes não usam todas. Mas como lidar com isso? É correto ter caras diferentes dependendo de com quem se está? Se temos várias, uma é a nossa real? Ou a soma de todas?
Há como responder essas perguntas? =O