Pensamentos Soltos.

 

mai68.jpg

Mesmo que a minha opinião pareça furada hoje irei escrever algumas linhas sobre o grande mal que nos assola: o conservadorismo. Outro dia no Stumble Upon esbarrei num relatório de determinada universidade americana anunciando os resultados de uma pesquisa sobre o que formaria a mente de um conservador. Entre os vários fatores apontados estavam lá o gosto por discursos certos e infalíveis e a exclusão da ambigüidade no seio da realidade social. O que isso quer dizer?

Discursos certos e infalíveis são aqueles que desconsideram a dúvida, ou o argumento negativo apresentando soluções ou idéias bastante claras e lógicamente corretas apesar de falaciosas. Assim, tais discursos apoiados na falência da verdade, mesmo sob o pretexto de atingirem a sociedade como um todo passam a contribuir unicamente com determinado grupo geralmente oposto a qualquer mudança no cenário político, ou simplesmente incapaz de se insurgir contra as estruturas apodrecidas do poder, seja por interesse de perpetuar-se numa situação, seja por total e completa ignorância.

Por isso, o poder do discurso conservador é avassalador. Considerando que tanto a má-fé quando a ignorância dos seus seguidores se alimenta únicamente de preconceitos, não se faz questão de incorporar a diferença, a contradição e a novidade no seu conteúdo. De onde podemos tirar que através dele se opera de forma brutal a exclusão da ambigüidade tão marcante nos fenômenos sociais e imprescidível para reciclagem de antigos valores morais.

Se operarmos uma pequena análise veremos que mesmo vociferando o ideal de “igualdade” o conservador lhe encara como excludente qualquer termo que se lhe opunha formalmente, e não como um princípio de que todos são iguais na medida em que se constituem como diferentes, visto que em verdade toda identidade é identidade da identidade e da diferença. Assim, para o homem burguês, heterossexual, conservador, branco e cristão encontram-se terminantemente marginalizados os judeus, as mulheres, os negros, os gays e os pobres.

Não importa o quão travestida de democrática seja a sua atitude, o conservador jamais será capaz de experenciar o verdadeiro reconhecimento. Sustentando-se apenas como senhor numa situação de submissão do seu outro, e portanto igualmente sua, ele mesmo se transforma em escravo da sua própria contingencialidade. Sendo mesmo impossível considerar na sua figura superior e tolerante qualquer traço de liberdade.

Fico verdadeiramente chocada com algumas opiniões que escuto pelo meio da rua. Ontem um rapaz alegou que todas as mulheres de vida sexual ativa seriam grandes vagabundas. Certo que fez isso de maneira indireta usando qualquer argumento machista, mas todos na mesa caíram na gargalhada.

A história poderia ser realmente ridícula não fosse patética. Acontece que enquanto procurava afirmar o seu ponto de vista bastante lúcido (isso é piada…), abraçava a namorada e lhe cobria de beijos. A menina, por sua vez apenas sorria. E, não parecíamos estar diante de grandes conservadores. Ambos vestiam-se como representantes da sociedade alternativa: piercings, tattoos, all star shoes…

Imagine! Na mesma noite antes de sair de casa estava conversando sobre o caso Heidegger x Hannah Arendt (voltarei a tratar desse assunto em outro tópico) e relembrei a fala de um colega que qualificava todo e qualquer judeu como incapaz de amar. Faz seis meses escutei essa frase pela primeira vez e fiquei completamente sem reação. Tanto mais porque parecia sair da boca de uma pessoa esclarecida e apesar de bastante jovem antenada no meio intelectual.

Esses pensamentos corriam soltos na minha cabeça, e quando atravessei o meu portão novamente às 3:00 da manhã não consegui mais relaxar. Algumas coisas me pertubavam bastante: a persistência do preconceito de gênero, o anti-semitismo (voltarei a esse tema em outro post) e direito que os conservadores nos conferem de não reagir as falsas acusações que nos jogam nos ombros.

Quando indiretamente sou chamada de vagabunda e insensível devo ficar calada. Mas, será que ninguém entende que não é certo permanecer calado por mais enraizado que esse comportamento esteja em nosso meio? A que custo se sustenta a falsa democracia e a tolerância demagógica dos conservadores? Será que deveremos sempre pagar pelos seus caprichos com a nossa liberdade?

Tenho um problema antigo com essa tal coisa chamada liberdade. Da época de escola, onde nossas diferenças começam a ser massacradas por uma certa quantidade de professores medíocres e uma maioria de colegas de turma perfeitamente imbecilizados ao período de Faculdade, quando a história só faz piorar ficamos tão desesperados que passamos a considerar como única saída para todo aquele sofrimento nos tornarmos iguais a todos eles: assimilados e assimiláveis.
Quantas pessoas já não se deixaram enganar por essa aparente solução? Quantas garotas desesperadas pela incompreensão do seu sexo, ou da sua creça pelo próximo, mesmo com inteligência suficiente para discernir entre o verdadeiro e o falso, acharam preferível deixar de viver as suas vidas para encontrar consolo na dependência absoluta do namorado se deixando enganar por um simples gesto de carinho dele e da sociedade, quando por detrás daquilo tudo existia um verdadeiro projeto de dominação? Quantos bailes de 15 anos não marcaram o sepultamento de uma possível mulher, e o nascimento de uma fêmea no sentido mais bestial possível? Sinto muita pena de quem optou por se sentir obrigatoriamente satisfeita com os rótulos de virgem frígida ou grande vagabunda insensível.
E, por isso não fico de mãos atadas diante do conservadorismo. Se podemos conhecer a mente de um conservador temos exatamente os meios necessários para combatê-la e não permanecermos passivos. Não se pode de forma alguma permanecer sem nada dizer ou fazer. É o conservadorismo que busca cercear a nossa liberdade aliado ao alto grau de extremismo em que se encontra mergulhado o mundo. Assim, como aconteceu em outras ocasiões históricas nem tão distantes do nosso presente vivemos um instante em que precisamos (re)aprender a agir – e sobretudo a contestar.

Uma resposta para “Pensamentos Soltos.”

  1. Elvis "Wolvie" Disse:

    Nossa! Excelente post!
    Até então, nunca tinha me dado conta de que o mal do mundo era o conservadorismo. Mas lendo seu texto, vejo que pode não ser “o”, mas é um dos mais tristes.
    Decididamente, concordo com sua linha de raciocínio. Não podemos ficar impunes enquanto tantos seres que se dizem humanos tratam uns aos outros de formas repugnantes e preconceituosas. Contestemos! Protestemos! Discutamos sobre formas de melhorar a humanidade! Aliás, criei a lista de discussão, você recebeu o convite? Um debate sobre esse tema seria mais que bem-vindo nela! =D

Deixe um comentário