“- E você, em que ponto se encontra? – perguntou-lhe Pierre, sentando-se em frente dela.
- Eu? – intimidava-a sempre um pouco falar de si própria, a sangue-frio.
- Você, sim… Continua sentindo a existência de Xavière como… digamos, uma coisa que a choca?
- Bem, agora só sinto isso de vez em quando.
- Mas sente, realmente, de tempos em tempos? – insistiu Pierre.
- Claro.
- É uma coisa espantosa. Não conheço mais ninguém capaz de verter lágrimas só por descobrir em outros uma consciência semelhante à sua.
- Acha isso estúpido?
- Claro que não. Sei bem que todos nós sentimos a própria consciência como um absoluto. Assim, como seria possível a compatibilidade entre vários absolutos? Há aqui um mistério tão grande como o do nascimento e da morte. Julgo mesmo que é neste problema que todas as filosofias quebram os dentes.
- Então, por que você se espanta?
- O que me surpreende é que você seja atingida duma maneira tão concreta por uma situação metafísica.
- Mas trata-se de uma coisa bem concreta. Todo sentido da minha vida se encontra em jogo.
- Não digo que não. Apesar de tudo – disse, olhando-a com interesse -, é excepcional esse poder, que você possui de viver uma idéia de corpo e alma.
- Para mim, uma idéia não é uma coisa teórica: sinto-a. Se é teórica, para mim não conta. Se não fosse assim – explicou, sorrindo -, não teria esperado por Xavière para me avisar de que a minha consciência não era única neste mundo.
Pierre, pensativo, passou um dedo pelo lábio inferior.
- Agora compreendo que você tenha feito essa descobeta a propósito de Xavière.
- Com você nunca senti isso porque não o distingo jamais de mim própria.
- Além disso, entre nós há reciprocidade.
- Que quer dizer?
- Você reconhece que tenho uma consciência, não é verdade? Ora, bem sabe que procedo da mesma forma em relação a você. Não acha que isso altera completamente a situação?
- Talvez – disse Françoise, fitando, pensativa, o fundo do copo. – Em resumo: a amizade é exatamente isso. A renúncia de cada um à sua própria preponderância. Mas se um de nós recusasse renunciar o que aconteceria?
- Nesse caso, a amizade seria impossível.
- E então, como resolver o problema?
- Não sei.
Ora, Xavière nunca renunciava; por mais alto que colocasse uma pessoa, por mais que a adorasse, ela continuava a ser um objeto.
- É… O problema não tem solução – concluiu Françoise, sorrindo.
Seria preciso matar Xavière. Andou até a janela. Nesse momento Xavière não tinha grande importância para ela. Afastou a cortina; gostava desta pracinha calma onde os habitantes do bairro vinham tomar a fresca; um velhinho, sentando num banco, tirava comida de um saco de papel; uma criança corria à volta de uma árvore, cujas folhas a luz do lampião recortava com precisão metálica. Pierre era livre. Ela se sentia sozinha. Dentro dessa separação, porém, ambos poderiam voltar a encontrar uma união tão essencial como aquela com que outrora sonhara, um pouco levianamente.
- Em que está pensando? – perguntou-lhe Pierre.
Françoise, sem responder; segurou-lhe o rosto com as mãos e cobriu-o de beijos.” Simone de Beauvoir, A convidada, pg. 341/342
Escrito por Juliana de Albuquerque K.