Enciclopédia das Ciências Filosóficas, 1830.

Junho 16, 2009

Notas de estudo do último semestre de 2007:

O fundamento do conteúdo enciclopédico é o saber absoluto da filosofia especulativa. Esse mesmo conteúdo enciclopédico que era fim da filosofia do espírito é agora início da Lógica. Levando a crer que o saber que é o fim é a verdade do começo. Ora, o ser abstrato, porque indeterminado, do começo só é possível porque é pressuposição de si posta pelo concreto final que é idéia absoluta para que se ponha como verdade (o todo que é a essência que se implementa através do seu desenvolvimento §20 Prefácio da Fenomenologia do Espírito.) e necessidade.

Entretanto, para que haja a posição do concreto mediante o movimento do abstrato que deve ser apreendido como pressuposição abstrata de si do concreto (final do §1 da Enciclopédia das Ciências Filosóficas de 1830,  para o qual “a dificuldade de instituir um começo apresenta-se ao mesmo tempo, porque um começo, como algo imediato, faz sua pressuposição; ou melhor, ele mesmo é sua pressuposição”.) se deve levar em conta que aquele saber que é o fim e é a verdade do começo é apenas na medida em que o saber absoluto (enciclopédico) que se põe deve ser mediatizado pelo seu próprio conteúdo enquanto mediatizando-se nele. Logo, nas passagens do ponente ao posto; concreto e abstrato condicionantes do ser verifica-se a transição regressiva de insuficiência do posto à necessidade do ponente em resolver a contradição desta condição na medida em que reconcilia os seus termos em uma unidade em que estão ligadas as suas diferenças para que exista a auto-fundamentação no saber absoluto da filosofia especulativa que encontra lugar no ser que por ser imediato e idêntico é perfeita mediação consigo mesmo e diferenciação de si.

Provando que o método filosófico, tanto sintético (porque não tem a diferença posta neste conceito) quanto analítico (contido num conceito imediato), é tanto identificação quanto diferenciação. O caminho dialético sendo a identificação da identificação e da diferenciação. Demonstrando que a Razão, espírito objetivo, é a pulsão do conceito na medida em que para que todo pensamento seja conceito deva necessariamente se manifestar ou objetivar, pois só é como identidade de sua diferença. Tomando o devido cuidado para que de identidade da identidade e da diferença este pensamento não passe à diferença da identidade e da diferença o que iria gerar um pensamento unilateral, do entendimento, que encontra arrimo nas ciências empíricas, no texto do Bourgeois exemplificadas pela Matemática e no Prefácio da Fenomenologia com a alusão à Anatomia. Ora, a leitura de Hegel exige que nos sacrifiquemos como seres mal-pensantes para reencontrarmos na filosofia especulativa, no absoluto como sistema conceitual do mundo fenomênico, o concreto, a verdade através da sua necessidade de se dar em conceitos e tornar-se inteligível. Vale ressaltar que é no concreto que o pensamento especulativo se revela como verdade da vida, esta que só pode ser captada especulativamente já que nela precisamente existe o especulativo. O que exige do leitor da ENZ. Atualização em sua reflexão do movimento do um em sua dualidade (contradição superada da identificação e da diferenciação) constitutiva de toda a vida.


WTF!

Junho 13, 2009

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Miller.

Junho 9, 2009

“Você é o crivo pelo qual minha anarquia passa e se decompõe em palavras. Atrás da palavra está o caos. Cada palavra é uma tira, um traço, mas não existe, nem nunca existirão, traços suficientes para fazer a trama.” Henry Miller, Trópico de Câncer.


Maria Bethania: Drama.

Maio 31, 2009

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“Um dos marcos na discografia de Maria Bethânia, este Drama – que significa “ação” em grego e designa logo de cara sua verve teatral – já começava com um Ponto contra o autoristarismo da ditadura: ’sou eu que me deito tarde/Sou eu que levanto cedo/ Sou eu que realço tudo/ Sou eu que não tenho medo.’ A mensagem era confirmada em outras faixas, como Negror dos tempos,  que produziu o álbum da irmã, tão logo chegou do exílio forçado em 72, presenteando-a ainda com uma de suas primeiras canções escritas no feminino: Esse cara. Esta canção logo se tornaria a faixa de maior sucesso deste LP ao lado de Estácio, Holly Estácio, pérola de Luiz Melodia que ele teve a felicidade de lançar um anos antes de ele gravar o seu primeiro LP.

Seu nome enigmático  - Drama/Anjo Exterminado - tem algumas curiosidades. Se o subtítulo foi obviamente colocado para saudar a canção de Macalé e Waly Salomão, Drama não era apenas o nome de uma canção de Caetano. “Drama significava teatro em Santo Amaro. Na minha terra não se falava a palavra teatro, se dizia: ‘eu vi um drama, vai ter um drama tal dia.’ “, explica hoje a cantora, dizendo ainda que há muito no mano Caetano nesse disco, por ter sido por ele, inclusive em sua conceituação.

Este álbum falava ainda sobre a força do ato de cantar na faixa-título (”Eu minto, mas a minha voz não mente (…) E, ao fim de cada ato, limpo num pano de prato as mãos sujas do sangue das canções”), mas uma de Caetano, que ainda compôs com Gil outra maravilha para este disco: Iansã, indo de encontro à forte religiosidade da cantora, devota assumida do candomblé. Do passado Bethânia garimpou o fado Maldição, do repertório de Amália Rodrigues, o samba Volta por cima, lançado por Noite Lustrada em 62 e o belo samba-canção Bom-dia, sucesso de Linda Batista, em 42. Finalmente, ainda deu uma de letrista em Trampolim, com música do mano. Até hoje, além desta, ela só lançaria mais cinco canções com a sua assinatura: Luz da Noite (presente no show Drama 3º ato, de 73), Pássaro Proibido (faixa-título do seu LP de 76) e Caras & Bocas (faixa título do LP de Gal Costa, de 77) em parceria com Caetano, e mais Reino antigo (do show que fez com Caetano, em 78) e Cana Caiana (que fez em homenagem à amiga Zezé Motta, em 79) – ambas com música da violonista Rosinha de Valença. 

Drama também foi lançado na Argentina (com outra capa, escura, com ela no palco e o título escrito em rosa) pelo selo Trova, o mesmo que registrou em disco seu encontro com Toquinho & Vinícius no ano anterior, quando realizaram uma série de apresentações em Mar del Plata, resultando no LP Vinícius + Bethânia + Toquinho En la Fusa (Mar del Plata) – que trouxe o nome da casa de shows e da cidade balneário no título por questões comerciais, pois o LP, em verdade, foi gravado em dois dias num estúdio de Buenos Aires, numa rápida escapada do trio, durante a temporada. Aliás, era a primeira viagem da cantora à Argentina. 

O ano de 1972 foi bem agitado para Bethânia. Além de ter reecontrado o irmão, Caetano, depois de um longo tempo exilado, ela deu asas à sua carreira internacional. Em janeiro, esteve na Europa, representando o Brasil no Festival de MIDEM, em Cannes, e cantando também em outras cidades da França e da Itália. No final do ano, seguiu em tournée de 38 concertos com o Terra Trio, num show de expoentes da MPB, onde também havia sets com Paulinho da Viola e Sebastião Tapajós, entre outros, começando em Frankfurt e terminando em Paris. Essa excursão deixou para a posteridade um disco intitulado Não tem solução (Caymmi) e um pot-pourri nordestino. Também apresentou (por um curto período) o programa MEC-Música, na TV Globo, mas logo viu que este não seria o seu veículo favorito e demitiu-se da empreitada. Em junho, também estreou o filme Quando o carnaval chegar, onde atuou ao lado do ator Hugo Carvana e dos colegas Chico Buarque e Nara Leão, formando com ambos um trio de cantores mambembes que protagonizavam a trama. A trilha do filme saiu em disco naquele mesmo ano pela Philips, onde a cantora lançava duas pérolas buarquianas de sua discografia: Baioque e Bom Conselho.Rodrigo Faour (Maio/2006)

 


A Contorcionista.

Maio 27, 2009

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É necessário que todos se convençam do próprio cinismo e proclamem em voz alta a própria imprudência. Assim, advirto cada um de vocês de que não quero mais esperar, perdoar e confiar em falsas expectativas. A vida é breve. “O tempo passa e nos carrega com ele: o momento em que falo já está longe de mim.” O tempo passa e eu me canso. Envelheço e embruteço. Perco o amor depositado em cada sonho. Passo a considerar tudo vão. Ao redor de mim é puro vazio. Ao redor de mim! Ai, quem me dera existisse um contexto. Algo para além dos meus braços e pernas: um horizonte no qual eu pudesse depositar a minha vista. Mas, não existe o horizonte. Diante de mim resto sozinha: não há braços que enlacem as minhas pernas. Existem as minhas pernas que se contorcem e se aninham nos meus próprios braços. O amor é sem importância. E, como pesa a desimportância: ela tem o meu próprio peso. Mas, já não suporto esse peso. Estou de ponta-cabeça: torcida e retorcida. As minhas mãos não se apoiam: simplesmente não se alcançam. Daquilo que me faço pesar ao desequilíbrio basta um passo. Tropeço. Despenco. Lamento sentir a minha cabeça girar entre os meus braços e as minhas pernas. Não existe tragédia no meu sofrimento. A minha queda mostrou-se uma pirueta. E, eu, caricata, metade bicho, metade artista de circo, sou a mentira burlesca para quem a plateia se desmanchou em risos.


16/09/08: Inquisição e Desabafo.

Maio 21, 2009

O perigo das filosofias dos universais está em encontrar na razão o fundamento para toda e qualquer espécie de despautério. Cito um exemplo: a falsa neutralidade diante de fatos históricos que acarretam na supressão do indivíduo. 

Hoje na sala de aula o professor nos fez refletir sobre a Inquisição Espanhola. Diante de uma turma de 15 alunos dos quais um deles era uma freira escutei a seguinte frase: a Igreja, enquanto instituição, e a grande maioria dos seus membros, acreditava ao tempo da Inquisição que faziam o bem. Daí não ser possível julgar cada um daqueles inquisidores que estavam cumprindo o seu dever.

É engraçado notar que este foi exatamente o argumento utilizado por Goering e Eichmann durante os seus julgamentos em Nuremberg e Jerusalém, respectivamente. Acredito que cumprir ordens seja uma coisa maravilhosa, e que de certa forma nos dê a sensação de total isenção de responsabilidade pelos nossos atos, afinal não estamos agindo por conta própria, mas representamos uma realidade seja ela um regime político ou uma religião.

Assim, não se pode julgar a ação de indivíduos que participavam de uma instituição que durante pelo menos quatro séculos conseguiu acabar com a maior e mais próspera comunidade judaica entre o mundo cristão e islâmico. Só para constar, existiam na Espanha até o final do século XIV mais de meio milhão de Judeus organizados em pelo menos 120 comunidades. Mas, é aquilo: para alguns não se pode julgar a Santa Inquisição porque este foi o movimento da história, ou o movimento da razão na história,  para que se cumprisse o princípio de se efetivar a Idéia de liberdade. 

Este é o respeito que as filosofias dos universais emprestam ao indivíduo enquanto singularidade radical. Toda e qualquer escolha feita por nós é irrelevante porque somos desde já apenas a realização do universal. Desta maneira estas filosofias justificam pela razão que opera a si mesma a crueldade de homens como Torquemada, Deza e Valdéz; ou mais recentemente homens como Hitler, Goering, Eichmann, Himmler, etc. 

Eu pensava sobre este assunto quando um aluno ergueu a mão e perguntou: então, não se pode dizer nada de Torquemada, como não se pode dizer nada de Hitler, ou do General Medici? Ao que foi respondido: “a distancia temporal dos fatos históricos colaboram para demonstrar que o espírito do mundo estava presente nos atos daqueles homens, mas não se pode dizer o mesmo de Medici porque a ditadura militar na America Latina foi um projeto criado pelos americanos não representando qualquer efetivação da idéia de Liberdade, e sim uma corrupção da ação por interesses particulares.” (Ao que se entende em linguagem vulgar: pimenta no cú dos outros é refresco.)

Neste exato momento o menino sentado ao meu lado falou: você parece um pouco doente. E respondi: é, tenho náusea. Acho que vou para casa. 

Daí peguei as minhas coisas e atravessei a porta da sala, e se não fosse a presença de dois amigos para dividir uma coca-cola eu teria descompensado. Porque durante toda minha vida ouvi repetidas vezes que determinados fatos históricos estavam no passado sem emprestar maiores conseqüências para a realidade presente. Mas eu vivo a conseqüência de fatos passados e sofro por eles até hoje graças aos homens que dedicados aos seus ofícios resolveram cumprir ordens e por isso, segundo alguns,  não merecem ser julgados.

Não estou pedindo para que as pessoas sintam dó das famílias que se acabaram, dos homens que foram torturados, das crianças que foram queimadas. Não estou pedindo para que se coloquem no lugar dessas pessoas porque seria hipócrita querer incutir nos outros o sentimento que pertence apenas a mim e outros poucos. Mas, peço apenas para que exista coerência nas suas falas para que assim a razão possa se demonstrar. Se a virtude está no meio, eu pergunto: onde está o meio?

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A Sonata a Kreutzer.

Maio 21, 2009

“Na primavera de 1803, o compositor foi convidado a apresentar em Viena uma sonata inédita para piano e violino. Seu acompanhante neste instrumento foi um jovem mulato, George Bridgetower, filhe de mãe polonesa e pai negro, ex-escravo nas Antilhas, que uma vez na Europa tornara-se valete dos Esterházy, família da aristocracia austro-húngara. O afro-polonês revelou-se desde cedo um prodígio ao violino, tendo sua precocidade comparada à de Mozart. 

Para o concerto de Viena, Beethoven entregou a parte do violino poucas horas antes da apresentação. Ainda assim o espetáculo foi um sucesso. Dizem os relatos que, a certa altura do primeiro movimento, após uma passagem dificílima para o piano, Bridgetower teria inesperadamente recriado o mesmo trecho ao violino, obtendo a aprovação entusiástica de Beethoven, que se ergueu do teclado, correu até ele para saudá-lo, e voltou a tempo de continuar tocando. A performance foi tão arrebatadora que, em seguida, Beethoven anunciou que dedicaria a obra a Bridgetower – e escreveu na partitura: Sonata per un mulaticco lunattico.  

Mais tarde, quando bebiam juntos, o jovem violinista, que, segundo consta, exercia grande atração junto às mulheres, fez um comentário de cunho particular sobre uma dama conhecida de Beethoven. Enfurecido, este pediu de volta a partitura e rasgou a dedicatória, intitulando-a mais tarde Sonata a Kreutzer, em homenagem a Rodolphe Kreutzer, tido então como o maior nome do violino na Europa. George Bridgetower faleceu em 1860, num asilo para indigentes em Londres, inteiramente esquecido pelo mundo musical – e Kreutzer, por sua vez, ao receber a partitura desta que é uma das sonatas mais célebres da história da música, considerou-a impossível de ser tocada e jamais apresentou a obra em público.

Tolstói conhecia a peça de Beethoven, mas voltou a ouvi-la na primavera de 1888 numa apresentação em sua própria casa. O impacto foi tão grand que o escritor retomou uma idéia que já acalentara antes, de escrever um monólogo dramático conturbado, à maneira de Dostoiévski, para ser levado ao palco pelo ator Andreyev-Burlak, também presente naquela audição. 

Trabalhando intensamente neste projeto, e somando a ele o desconforto que experimentava em seu próprio casamento, a leitura de manuais de ginecologia e de conselhos médicos para a gravidez e a higiene feminina, bem como o relatoque ouvira certa vez das angústias de um homem ante a infidelidade de sua esposa, Tolstói condensou, no tempo de uma viagem de trem, uma narrativa de caráter alucinatório, cujos movimentos parecem dialogar com as escalas vertiginosas que piano e violino exploram na obra de Beethoven.

Ainda antes da sua publicação definitiva em 1891, cópias do manuscrito espalharam-se pela Rússia, provocando enorme escânda-lo e respostas variadas, como a de Nikolai Leskov, que escreveu “A propósito de A Sonata a Kreutzer” que se contrapõe à moral severa do autor de Guerra e Paz. Sob qualquer ângulo que seja considerada, entretanto, esta novela de Tolstói constitui uma obra-prima sobre a incompreenão mútua etre homens e mulheres, na qual o andamento inexorável da tragédia não obscurece a lucidez cristalina de sua linguagem” Boris Schnaiderman in Tolstói, A Sonata a Kreutzer.  


Ladino.

Maio 18, 2009

 

Axérico de quinze años
Su ermozura es una.

Ya así empezó azer el amor
Como una criatura.

Siete ciudades yo pasí
De París asta Londra

Y como tí, yo no topí
Aunque sos morena.

A morena, morena de mi corazón
Con un beso y un abrazo
Dámelo tu con amor
Sabrás mi morena
Que por tí me muero yo.


Prévert

Maio 9, 2009

“Il y a des gens qui dansent sans entrer en transe et il y en a d’autre qui entrent en transe sans danser. Ce phénomène s’appelle la Transcendance et dans nos régions il est fort apprécié.” Jacques Prévert


Falência multipla das nossas capacidades morais.

Abril 30, 2009

Ser com o outro custa muito e acaba nos fazendo sentir permanentemente frustrados. É como se a linguagem não fosse suficiente para expressar a verdadeira dimensão daquilo que sentimos no instante em que aquele outro se torna essencial para as nossas vidas, ao mesmo tempo em que ele repele a espontaneidade de algumas atitudes nossas, provocando uma agoniante sensação de cansaço.