Relato da vida de Margarida. Leitora apaixonada das poucas coisas que costumo escrever.
Antes de dormir: três comprimidos. Segundo o psiquiatra sofro de um distúrbio psicótico maníaco-depressivo chamado existência. O meu quadro é complicado e por isso requer a formação diária de uma meta-bolha que isole os sintomas da doença do resto da sociedade. Todas as noites – antes de dormir – três comprimidos.
O primeiro deles foi receitado pela ginecologista a pedido do psiquiatra. Chama-se pílula anti-concepcional: “…interrompa a ingestão das pílulas no vigésimo quarto dia do ciclo mestrual. Menstrue. Espere quatro dias e recomece outra cartela.” A bula não traz escrito qualquer coisa sobre educar sexualmente possíveis mães-solteiras. Mas parece que atraio a atenção das pré-universitárias pois sofro todos os dias com verdadeiros inquéritos sobre as maravilhas dos anti-conceptivos.
Nenhum dos meus médicos poderia imaginar que ao ingerir um comprimido a minha vida pudesse mudar tão radicalmente. “Qual pílula devo tomar?” é a segunda pergunta mais feita no meu MSN depois de “Qual pílula você toma?”. Numa conversa com a minha ginecologista deixei escapar: “normalmente quando me perguntam sobre métodos anti-conceptivos sempre indico a pílula acompanhada da camisinha para ter certeza que a espécie humana não vá se propagar. E, na pior das hipóteses sugiro que a pessoa simplesmente utilize o senso crítico e sequer inicie a vida sexual: para quê mais gente feia no mundo?”
O segundo comprimido foi receitado pelo psiquiatra para combater o quadro apatia e cansaço causado pela rotina de perguntas que enfrentei diariamente desde o primeiro dia de uso do anti-concepcional. E quando comecei a tomar Verotina a minha vida mudou. As pré-universitárias simplesmente desapareceram. Na rua eu não escutava o barulho dos carros. Nas festas eu não compreendia o ir-e-vir das pessoas ou o balbuciar das suas palavras. Foi como fumar um baseado: eu estava sempre sorrindo e passei a receber comentários positivos. Alguém me falou depois de uma aula de Processo Civil: “nunca imaginei que você fosse uma pessoa simpática!”
Adoro ser simpática. Não existe algo mais inútil que a simpatia. Talvez todo ser-humano para compreender a transitoriedade da sua natureza devesse buscar a simpatia e para isso qualquer esforço vale à pena: fale já com o seu psiquiatra e adquira simpatia em pequenos comprimidos de doses diárias.
Pronto! O meu mundo estava quase perfeito. Salva de qualquer risco de gravidez e dona de um sorriso adorável resolvi reformar o meu apartamento. Comprei algumas estantes e passei a freqüentar os sebos em busca de promoções de clássicos por peso. Obtive uma grande vitória numa pechincha que fiz de Ulysses: na compra de um quilo e meio de Joyce ganhei quinhentos gramas de Tostoi. Também passei a comprar vinhos, discos de jazz e queijos para fazer raqulettes às sextas.
Neste ponto o meu psiquiatra resolveu aliviar um pouco meu tratamento. Estava orgulhoso do meu progresso e do seu desempenho hipocrático na salvação da sociedade. A meta-bolha estava formada. As raqulettes às sextas acompanhadas de Bordeaux e Duke Ellington depois de uma leitura coletiva de Ser e Tempo na minha varanda eram prova da minha cura.
“Mas, ainda tenho um círculo de convivência. O senhor tem certeza que quer apressar a minha alta?”
“A bolha está formada. E mesmo que ela não estivesse acredito que essas pessoas já foram imunizadas. Não se preocupe. “
Acreditei no médico por falta de opção. Afinal tudo ia bem de acordo com a minha mais perfeita ordem. Eu estava para a minha casa como Deus estava para o sistema de Spinoza. Foi quando então conheci o meu futuro marido: bonito e treinador de vôlei ele não entendia nada de filosofia e bebia vinho como quem tomava água. Gostava de mim porque eu era simpática e bem disciplinada. Um verdadeiro exemplo de pessoa “que funcionava como uma equipe esportiva deveria funcionar”.
Num dos nossos primeiros encontros ele levou toda a sua equipe de vôlei para o meu apartamento. Era época de campeonato nacional de times universitários da liga “D” e todos precisavam de conselhos motivacionais. Mostrei aos jogadores cada canto da minha casa para demonstrar como no meu apartamento cada coisa estava certa de cumprir o seu próprio papel: defesa, ataque, levantamento e bloqueio.
Um mês depois me casei. Foi o fim do meu equilíbrio. A minha meta-bolha estourou. Eu ainda tomava alguns comprimidos antes de dormir. Dois: a pílula anti-concepcional e a Verotina. Mas as sensações de isolamento e de potência tinham se desfeito. O treinador queria mudar a cor das paredes e substituir as estantes de madeira por móveis tubulares. Falou que a casa estava impregnada de livros e precisava de mais espaço na geladeira para guardar cerveja. Arranhou os meus CDs de Duke Ellington e derramou café na minha edição autografada do Segundo Sexo. Disse que o que eu fazia era merda. Que estava ficando neurótica. Pediu para que eu deixasse de tomar a pílula e não poupou as tentativas para procurar me engravidar.
Voltei a consultar os meus médicos. A ginecologista sugeriu injeções de hormônios semanais ao invés de pílulas. Tornei a ficar nervosa. O excesso de hormônios não me deixava dormir. Fui visitar o psiquiatra. Avisei que durante a noite colocava uma faca debaixo do travesseiro e trancava as portas do apartamento três vezes para ter certeza de que não me tornaria vítima de violência urbana. Disse que o meu casamento estava uma merda e que a minha principal ocupação era recolher as cuecas sujas do meu marido pela sala enquanto ele dormia bêbado estirado na cama.
O médico então me sugeriu o divórcio. Fiquei um pouco mais aliviada depois que o treinador foi embora da minha casa. Voltei a tomar pílulas anti-concepcionais de baixa dosagem. O anti-depressivo passou a fazer efeito novamente. Mas agora a bolha seria mais difícil de fechar. Segundo o psiquiatra eu havia desenvolvido um transtorno obsessivo compulsivo graças ao excesso de convivência doméstica que tive no período de casada. Para que a meta-bolha voltasse a ser totalmente eficiente eu agora precisaria de um terceiro comprimido. Uma grande cápsula acinzentada que aos poucos iria inibir algumas manias adquiridas: “coisa pouca”.
Antes de dormir: três comprimidos. Coisa simples. O único incomodo é se acordar perto das seis horas da manhã para usar o banheiro. De resto pude manter as estantes de madeira. E agora por precaução médica passei a fazer leituras solitárias e cozinhar raqulettes individuais às sextas. Assim mantenho a minha bolha.
Escrito por Juliana de Albuquerque K. 
